sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Pirkei Avot Sáb, 27 de Dezembro de 2014 00:18

É costume recitar um capítulo de Pirkê Avot (sequencialmente) a cada Shabat entre Pessach e Shavuót, em Minchá. Recita-se a Mishná "Col Israel" antes de cada capítulo, e a Mishná "Rabi Chananiá" depois de cada capítulo. Alguns continuam recitando um capítulo de Pirkê Avót todos os Shabatót durante o verão (boreal), isto é, de Pessach até o Shabat anterior a Rosh Hashaná. E este é o nosso costume.

CAPÍTULO UM

Todo Israel tem parte no Mundo Vindouro, pois foi dito: E teu povo, todos eles são justos; eles herdarão para sempre a terra; são o ramo de Meu plantio; a obra de Minhas mãos, da qual orgulhar-se.

1.      Moshé recebeu a Torah do Sinai e a passou a Iehoshúa; Iehoshúa aos Anciãos; os Anciãos aos Profetas; e os Profetas a passaram aos Homens da Grande Assembleia. Eles (os homens da Grande Assembleia) disseram três coisas: Sejam prudentes no julgamento; formem (ergam) muitos discípulos; e façam uma cerca em torno da Torah.

2.      Shimón, o justo, foi um dos últimos (membros) dos Homens da Grande Assembléia; Ele costumava dizer: O mundo ergue-se sobre três coisas - sobre (o estudo de) Torah, o serviço (a Deus – no Bêt Hamicdash, nas preces) e os atos de bondade.

3.      Antignos de Sochó recebeu (a tradição oral) de Shimón, o justo. Ele costumava dizer: Não sejam como servos que servem a seu amo para receber recompensa, e sim como servos que servem a seu amo sem o propósito de receber recompensa; e que o temor do Céu esteja sobre vocês.

4.      Iossei ben Ioézer de Tseredá e Iossi ben Iochanán de Jerusalém receberam (a tradição oral) deles. Ióssi ben Ioézer de Tseredá disse: Que o teu lar seja um lugar de    reunião para os Sábios; senta-te no pó aos seus pés; e beba, sedento, suas palavras.

5.      Iossi ben Iochanán de Jerusalém disse: Que o teu lar seja ben aberto (aos hóspedes); trata os pobres como membros de tua família; e não te entregues excessivamente à conversa com a mulher. Isto é dito a respeito da própria esposa; quanto mais há de se aplicar à esposa de outro. Foi por causa disso que os Sábios declararam: Todo aquele que se entrega em excesso à conversa com uma mulher prejudica a si mesmo, descuida-se do estudo da Torah, e afinal herdará o Guehinóm (Purgatório).

6.      Iehoshúa ben Perachiá e Nitai de Arbel receberam (a tradição oral) deles. Iehoshúa ben Perachiá disse: Proveja para ti um mestre; adquira para ti um amigo; e julgue a cada pessoa favoravelmente.

7.      Nital de Arbel disse: Mantenha-te distante de um mau vizinho; não te confraternizes com um homem malvado; e não abandones a crença na retribuição (Divina).

8.      Iehudá ben Tabai e Shimón ben Shátach receberam (a tradição oral) deles. Iehúda ben Tabai disse: Não ajas estiverem de pé à tua frente considere a ambos como culpáveis; mas quando partirem de ti, havendo aceitado a sentença, considere a ambos como inocentes.

9.      Shimón ben Shatách disse: Examine as testemunhas minuciosamente; e seja cauteloso com tuas palavras, para que não seja por causa delas que (as testemunhas ou os litigantes) aprendam a dizer mentiras.

10.  Shemaiá e Avtalión receberam ( a tradição oral) deles. Shemaiá disse: Ame o trabalho; abomine assumir altos cargos; e não procure intimidade com o poder governante.

11.  Avtalión disse: Sábios, sejam cuidadosos com suas palavras, pois vocês podem ser punidos com o exílio e desterrados para um lugar de águas malignas (heresia), e os discípulos que os sigam para lá beberão e perecerão (espiritualmente), e consequentemente o Nome do Céu será profanado.

12.  Hilel e Shamai receberam (a tradição oral) deles. Hilel disse: Sejam dos discípulos de Aharón, amando a paz e procurando a paz, amando às suas criaturas semelhantes e aproximando-as da Torah.

13.  Ele costumava dizer: Aquele que procura renome perde seu nome; aquele que não aumenta (seu conhecimento de Torah) o diminui; aquele que não estuda (a Torah) merece a morte; e aquele que explora a coroa (da Torah para seus próprios interesses) perecerá.

14.  Ele costumava dizer. Se eu não for por mim, quem está por mim? E se apenas estou para mim, o que sou eu? E se não agora, quando?

15.  Shamai disse: Estabeleça para ti um tempo fixo para teu estudo da Torah; diga pouco e faça muito; e receba cada pessoa com uma face alegre.

16.  Raban Gamliel disse: Providencie para si mesmo um mestre e livre-se da dúvida; e não separe o dizimo por adivinhação (cálculo aproximado), mesmo dando mais do que a quantidade estipulada.

17.  Shimón, seu filho, disse: Toda minha vida cresci entre os Sábios e não encontrei nada melhor para a própria pessoa que o silêncio; não é o estudo, e sim a prática que é o principal; e quem conversa em excesso traz o pecado.

18.    Raban Shimón ben Gamliel disse: O mundo perdura em virtude de três coisas: a justiça, a verdade e a paz, pois foi dito: Administrem a verdade e o juízo de paz em seus portais. Rabi Chananiá ben Acashiá disse: (D-us), o Santo, bendito seja, quis fazer com que o povo de Israel tivesse (muitos) méritos; por isso, deu-lhes a Torah e mitsvót em medida abundante, como está escrito: O Senhor quis, pela retidão deles (= para que o povo de Israel fosse justo), tornar a Torah grande e magnífica.

CAPÍTULO DOIS

Todo Israel tem parte no Mundo Vindouro, pois foi dito: E teu povo, todos eles são justos; eles herdarão para sempre a terra; são o ramo de Meu plantio; a obra de Minhas mãos, da qual orgulhar-se.

1.      Rabi [Iehudá HaNassí] disse: Qual é o caminho reto que um homem deve escolher para si? Aquele que é honroso para si mesmo e que lhe traga a honra do homem. Seja tão cuidadoso no [cumprimento de uma] mitsvá [aparentemente] menor como no de uma maior, pois você não conhece a recompensa que se dá pelas mitsvót. Considere a perda [sofrida pelo cumprimento] de uma mitsvá frente à recompensa [ganha por sua observância], e o ganho [obtido] de um pecado frente à perda [que este lhe trará em seguida]. Reflita sobre três coisas e você não chegará a pecar: Reconheça o que existe acima de você: um Olho que vê, um Ouvido que escuta, e todos seus atos estão registrados em um Livro.

2.      Raban Gamliel, o filho de Rabi Iehudá HaNassí, disse: É belo o estudo da Torah [combinado] com uma ocupação, pois o esforço que requerem ambos mantêm o pecado distante da mente; e todo o estudo da Torah que não é combinado com trabalho finalmente cessará e levará ao pecado. Todos os que se ocupam com os assuntos da comunidade, que o façam pelo Céu [por amor a Deus], pois o mérito de seus pais os auxilia e sua retidão perdura eternamente. E para vocês — [disse Deus] — designarei uma grande recompensa como se houvessem conseguido [tudo sozinhos].

3.      Sejam cuidadosos com aqueles que estão no poder, pois oferecem sua amizade à pessoa unicamente em benefício próprio; eles aparentam ser amigos quando lhes convêm, mas não se erguem ao lado de um homem em sua hora de aperto [necessidade].

4.      Ele costumava dizer: Cumpra Sua vontade [a de Deus] como se fosse tua própria vontade, para que Ele cumpra tua vontade como se fosse a Sua vontade; desfaça a tua vontade por causa da Sua vontade, para que Ele desfaça a vontade dos outros ante a tua vontade. Hilel disse: Não te separes da comunidade; não te sintas seguro de ti mesmo até o dia de tua morte; não condenes a teu próximo até ter estado em seu lugar; não formules uma declaração [ambígua] que não seja facilmente compreendida [acreditando] que mais tarde ela será compreendida; e não digas: "Quando tiver tempo livre, estudarei", pois talvez nunca tenhas tempo livre.

5.      Ele costumava dizer: Um tolo não pode ser temeroso do pecado, nem um ignorante pode ser um chassid [aquele que faz mais do que exige a lei, ao pé da letra]; a pessoa tímida [que tem medo de questionar] não pode aprender, nem a colérica [que não tem paciência] pode ensinar; nem todo aquele que está muito ocupado no comércio pode tornar-se um erudito; e no lugar em que não haja homens, esforça-te para ser um homem.

6.      Ele também viu um crânio flutuando sobre a água; disse-lhe: Porque afogaste a outros, eles te afogaram; e finalmente aqueles que te afogaram também serão afogados.

7.      Ele costumava dizer: aumentar a carne, aumenta os vermes [no túmulo]; aumentar posses, aumenta a preocupação; aumentar [o número de] esposas, aumenta a feitiçaria; aumentar [o número de] criadas, aumenta a libertinagem; aumentar [o número de] servos, aumenta o roubo. [Mas] aumentar Torah, aumenta a vida; aumentar o estudo assíduo, aumenta a sabedoria; aumentar conselho, aumenta o entendimento; aumentar a caridade, aumenta a paz. Quem adquiriu um bom nome, o adquiriu para si; quem adquiriu para si o conhecimento da Torah, adquiriu para si a vida no Mundo Vindouro.

8.      Rabi Iochanán ben Zacai recebeu [a tradição oral] de Hilel e de Shamai.Ele costumava dizer: Se aprendeste muita Torah, não pretendas reconhecimento especial, pois foste criado justamente para essa finalidade.

9.      Rabi Iochanán ben Zacai teve cinco discípulos [destacados], e estes eram Rabi Eliezer ben Horkinús, Rabi Iehoshúa ben Chananiá, Rabi Iossi, o Cohen, Rabi Shimón ben Netanel e Rabi Elazar ben Arách. Ele costumava enumerar suas qualidades louváveis: Rabi Eliezer ben Horkinús — uma cisterna cimentada que não perde uma gota; Rabi Iehoshúa ben Chananiá — feliz é aquela que lhe deu à luz; Rabi Iossi, o Cohen — um chassid [uma pessoa piedosa, de bom coração, que faz mais do que a lei exige]; Rabi Shimón ben Netanel — temeroso do pecado; e Rabi Elazar ben Arách — como uma fonte, da qual flui cada vez com maior força. Ele costumava dizer: se todos os Sábios de Israel estivessem de um lado da balança e Eliezer ben Horkinús do outro, ele pesaria mais que todos. Abá Shaul disse em seu nome: se todos os Sábios de Israel, inclusive Eliezer ben Horkinús, estivessem de um lado da balança, e Elazar ben Arách estivesse do outro, este pesaria mais que todos.

10.  Ele disse a eles: Saiam e vejam qual é o bom caminho ao qual o homem deve aderir. Rabi Eliezer disse: Um bom olho; Rabi Iehoshúa disse: Um bom amigo; Rabi Iossi disse: Um bom vizinho; Rabi Shimón disse: Aquele que considera as conseqüências [de suas ações]; Rabi Elazar disse: um bom coração. [Raban Iochanán ben Zacai] disse a eles: Prefiro as palavras de Elazar ben Arách às suas, pois em suas palavras estão incluídas as suas. Disse-lhes: Saiam e vejam qual é o mal caminho do qual o homem deve se afastar. Rabi Eliezer disse: Um mau olho; Rabi Iehoshúa disse: Um mau amigo; Rabi Iossi disse: Um mau vizinho; Rabi Shimón disse: Aquele que toma emprestado e não devolve — quem toma emprestado do homem é como se tomasse emprestado de Deus — pois foi dito: O malvado toma emprestado e não devolve, mas o reto age com graça e dá. Rabi Elazar disse: um mau coração. [Raban Iochanán ben Zacai] disse a eles: Prefiro as palavras de Elazar ben Arách às suas, pois em suas palavras estão incluídas as suas. Eles disseram três coisas [cada um]: Rabi Eliezer disse: Que a honra de teu próximo seja tão preciosa para ti como se fosse tua própria [honra], e não te irrites com facilidade. Arrependa-te um dia antes de tua morte. Esquenta-te com o fogo dos Sábios, porém cuida-te de suas brasas ardentes, para que não te queimes — pois sua mordida é a mordida de uma raposa, sua picada é a picada de um escorpião, seu silvo é o silvo de uma serpente, e todas suas palavras são como brasas ardentes.

11.  Rabi Iehoshúa disse: O olho mau, a má inclinação e o ódio ao próximo arrebatam o homem do mundo.

12.  Rabi Iossi disse: Que o dinheiro do teu próximo seja tão precioso para ti como se fosse o teu próprio [dinheiro]; prepara-te para o estudo da Torah, pois não chega a ti através de herança; e que todas tuas ações sejam por amor ao Céu.

13.  Rabi Shimón disse: Seja cuidadoso na leitura do Shemá e na prece. Quando orar, não faça da tua prece um ato rotineiro [mecânico], e sim um rogo de piedade e uma súplica diante de Deus, pois foi dito: Porque Ele é gracioso e compassivo, lento para a ira e de abundante misericórdia, e desiste do mau decreto. E não te consideres malvado em tua própria auto-avaliação.

14.  Rabi Elazar disse: Seja diligente no estudo da Torah; saiba o que responder a um não-crente; e saiba diante de Quem tu te esforças; e Quem é o teu patrão que pagará a recompensa de teu labor.

15.  Rabi Tarfón disse: O dia é curto, o trabalho é demasiado, os trabalhadores são preguiçosos, a recompensa é grande, e o Dono insiste [urge].

16.    Ele costumava dizer: Não estás incumbido de completar o trabalho, porém não estás livre para desistir dele; se estudaste muita Torah, te darão muita recompensa; e teu Patrão é confiável em te pagar a retribuição de teu labor; porém saiba que a entrega da recompensa aos justos será no Mundo Vindouro.

CAPÍTULO TRÊS

Todo Israel tem parte no Mundo Vindouro, pois foi dito: E teu povo, todos eles são justos; eles herdarão para sempre a terra; são o ramo de Meu plantio; a obra de Minhas mãos, da qual orgulhar-se.

1.      Akaviá ben Mahalalel disse: Reflita sobre três coisas e não chegarás a pecar: saiba de onde vieste, para onde vais, e perante quem, no futuro, haverás de prestar juízo e contas. "De onde vieste" - de uma gota fedorenta; "e para onde vais" - para um lugar de pó, larvas e vermes; "e perante quem haverás de prestar juízo e contas" - perante o supremo Rei dos reis, o Santo, bendito seja.

2.      Rabi Chaniná, suplente do Sumo Sacerdote, disse: Reza pelo bem-estar do governo, pois se não fosse pelo temor a este, os homens se engoliriam vivos uns aos outros. Rabi Chaniná ben Teradión disse: Se duas [pessoas] estão sentadas juntas e não trocam entre si palavras de Torah, esta é uma companhia de zombadores, pois foi dito: Ele não se senta em companhia de zombadores. Mas se dois se sentam juntos e trocam entre si palavras de Torah, a Presença Divina repousa entre eles, pois foi dito: Então os que temem a Deus conversaram um com o outro, e Deus prestou atenção e escutou, e um livro de recordação escreveu-se diante d'Ele para aqueles que temem a Deus e meditam sobre [a grandeza de] Seu Nome. Deste versículo aprendo apenas que é assim quando se trata de duas pessoas; de onde aprendemos que mesmo quando uma [pessoa] se senta só e se ocupa com a Torah, que o Santo, bendito seja, fixa para ela uma recompensa? Do versículo: Ele senta-se só e [estuda tranqüilo] em silêncio;de fato, ele toma para si [a recompensa].

3.      Rabi Shimón disse: Três [pessoas] que comeram na mesma mesa e não falaram palavras de Torah é como se houvessem comido dos sacrifícios aos [ídolos] sem vida, pois foi dito: Certamente, todas as mesas estão cheias de vômitos asquerosos, [quando] não há [a menção de] Deus. Mas três [pessoas] que comeram na mesma mesa e pronunciaram ali palavras de Torah, é como se houvessem comido da mesa de Deus, pois foi dito: E disse para mim: Esta é a mesa que se encontra em frente a Adonai.

4.      Rabi Chaniná ben Chanichai disse: Quem fica acordado à noite ou fica andando pelo caminho, e volta seu coração à ociosidade, realmente [se então ele não se dedica à Torah], coloca em perigo a sua vida.

5.      Rabi Nechuniá ben Hacaná disse: Quem assume sobre si o jugo da Torah [isto é, a obediência e diligência no seu estudo e cumprimento] - lhe são retirados o jugo do governo1 e o jugo das obrigações mundanas; porém, quem retira de si o jugo da Torah – lhe são impostos o jugo do governo e o jugo das obrigações mundanas.

6.      Rabi Chalaftá ben Dossá de Kfar Chananiá disse: Se dez [pessoas] sentam-se juntas e se ocupam de Torah, a Presença Divina repousa entre elas, pois foi dito: Deus ergue-Se na congregação de Adonai 2. De onde sabemos [que isto também é verdade mesmo apenas] com cinco? Pois foi dito: E o Seu grupo3 [feixe] Ele fundou sobre a terra. De onde sabemos [que o mesmo é verdade apenas] com três? Pois foi dito: Entre os juízes Ele julga4. De onde sabemos [que o mesmo é verdade apenas] com dois? Pois foi dito: Então os tementes de Deus conversaram um com o outro 5, e Deus prestou atenção e escutou. De onde sabemos [que o mesmo é verdade apenas] com um? Pois foi dito: Em todo lugar em que Meu Nome seja mencionado virei a ti e te abençoarei6.

7.      Rabi Elazar de Bartota disse: Dá a Ele do que é Seu, pois tu e tudo que é teu é d'Ele. E assim foi dito por David: Pois tudo é Teu, e do Teu temos Te dado. Rabi Iaacóv disse: Quem anda pelo caminho e estuda [Torah], e interrompe seu estudo e observa: "Quão bela é esta árvore!", "Quão belo é esse campo arado!", é considerado pelas Escrituras como se fosse culpável de um pecado mortal.

8.      Rabi Dostaí bar Ianái disse em nome de Rabi Meír: Quem esquece algo de seu estudo [da Torah], as Escrituras o consideram como se fosse culpável de um pecado mortal, pois foi dito: Mas tenha cuidado e guarde tua alma escrupulosamente, para que não esqueça as coisas que teus olhos viram. Poderia se pensar que isto se aplica inclusive se o tema foi demasiado difícil para ele [e por isso o esqueceu], motivo pelo qual nas Escrituras acrescenta-se: Para que elas não sejam afastadas de teu coração todos os dias de tua vida. 1) Isto é, a comunidade assume o fardo de suas obrigações [junto ao governo]. 2) "Congregação" refere-se a dez pessoas - vide Números 14:27. 3) Refere-se a algo (atado) que agarra-se com os cinco dedos. 4) De acordo com a Torah, um Tribunal mínimo compõe-se de três juízes. 5) "Um com o outro" refere-se a duas pessoas. 6) A frase está no singular; refere-se a uma pessoa. De modo que ele não é culpável de pecado mortal a menos que se sente [ociosamente] e o remova [de sua memória, mediante a negligência na revisão de seus estudos].

9.      Rabi Chaniná ben Dossá disse: Todo aquele cujo temor ao pecado precede à sua sabedoria, sua sabedoria perdurará; mas todo aquele cuja sabedoria precede ao seu temor ao pecado, sua sabedoria não perdurará.

10.  Ele costumava dizer: Todo aquele cujas [boas] ações excedam sua sabedoria, sua sabedoria perdurará; mas todo aquele cuja sabedoria exceda suas [boas] ações, sua sabedoria não perdurará. Ele costumava dizer: Todo indivíduo que seus semelhantes se comprazem [têm satisfação] com ele, Deus Se compraz com ele; porém, todo indivíduo que seus semelhantes não se comprazem com ele, Deus [também] não Se compraz com ele. Rabi Dossá ben Harkinás disse: O sono [tarde] pela manhã, o vinho ao meio-dia, o tagarelar das crianças, e sentar-se nos locais de reunião dos ignorantes, arrebatam o homem do mundo.

11.  Rabi Elazar de Modín disse: Aquele que profana as coisas sagradas, que degrada as festividades, que humilha publicamente a seu próximo, que revoga o pacto de nosso pai Avraham [a circuncisão] e que interpreta a Torah em forma contraditória a seu autêntico sentido - mesmo que possua Torah e boas ações, não tem parte no Mundo Vindouro.

12.  Rabi Ishmael disse: Submeta-se espontaneamente a um superior, seja cortês com uma pessoa mais jovem, e receba todas as pessoas com alegria.

13.  Rabi Akiva disse: O riso e a frivolidade acostumam o homem à luxúria. A Tradição [a Torah Oral transmitida] é uma cerca em torno da Torah; os dízimos são uma cerca para as riquezas; as promessas são uma cerca para a abstinência; uma cerca para a sabedoria é o silêncio.

14.  Ele costumava dizer: Querido é o homem, pois foi criado à imagem [de Deus]; é um carinho ainda maior o fato de fazê-lo ciente de que foi criado à imagem [de Deus], pois foi dito: Porque à imagem de Deus Ele fez o homem. Amado é o povo de Israel, pois eles são chamados filhos de Deus; é um carinho ainda maior fato de fazê-los cientes de que foram chamados filhos de Deus, pois foi dito: Vocês são os filhos de Adonai, seu Deus. Amado é o povo de Israel, pois a ele foi entregue um artigo precioso; um carinho ainda maior é o fato de fazê-los cientes de que lhes foi entregue um artigo precioso, pois foi dito: Eu dei a vocês um bom Ensinamento; não abandonem Minha Torah.

15.  Tudo está previsto, porém, mesmo assim, se concede liberdade de escolha; o mundo é julgado com bondade, e tudo é de acordo com a preponderância das [boas] ações.

16.  Ele costumava dizer: Tudo se dá com garantia e uma rede se estende sobre todos os seres vivos; a loja está aberta, o Vendedor dá crédito, o livro de contas está aberto, a mão escreve, e quem deseja tomar emprestado, que venha e tome emprestado; os cobradores fazem suas rondas regularmente, todos os dias, e cobra-se do homem com ou sem o seu conhecimento [de sua dívida], e eles têm em que se basear; o julgamento é um julgamento de verdade; e tudo está preparado para o banquete.

17.  Rabi Elazar ben Azariá disse: Se não há Torah, não há conduta social adequada; se não há conduta social adequada, não há Torah. Se não há sabedoria, não há temor [a Deus]; se não há temor [a Deus], não há sabedoria. Se não há conhecimento, não há entendimento; se não há entendimento, não há conhecimento. Se não há farinha [sustento], não há Torah; se não há Torah, não há farinha. Ele costumava dizer: A pessoa cuja sabedoria excede suas [boas] ações, a que se pode comparar? A uma árvore cujos galhos são numerosos porém suas raízes são poucas, e vem o vento, arranca-a e vira-a de cabeça para baixo, pois foi dito: E será como árvore solitária em terra árida e não verá quando chega o bem; habitará em terra seca no deserto, em terra salina inabitável. Mas aquele cujas [boas] ações excedem sua sabedoria, a que se pode comparar? A uma árvore cujos galhos são poucos mas cujas raízes são numerosas, de modo que mesmo que viessem todos os ventos do mundo e soprassem sobre ela, não poderiam movê-la de seu lugar; pois foi dito: E será como árvore plantada junto às águas, que estende suas raízes até a correnteza, não sentirá quando chega o calor, e sua folhagem será verdejante; em um ano de seca não se preocupará, nem deixará de dar fruto.

18.  Rabi Eliezer Chismá disse: As leis referentes ao sacrifício de aves e ao cálculo relativo ao princípio da menstruação - estas são elementos principais da halachá [Lei da Torah]; o cálculo dos ciclos [astronomia] e o cálculo numerológico de palavras hebraicas [utilizados como base para a interpretação homilética] são condimentos da sabedoria.

CAPÍTULO QUATRO

Todo Israel tem parte no Mundo Vindouro, pois foi dito: E teu povo, todos eles são justos; eles herdarão para sempre a terra; são o ramo de Meu plantio; a obra de Minhas mãos, da qual orgulhar-se.

1.      Ben Zomá disse: Quem é sábio? Aquele que aprende de cada pessoa, pois foi dito: De todos os que me ensinaram obtive sabedoria; na verdade, Teus testemunhos são minha conversa. Quem é forte? Aquele que domina sua [má] inclinação, pois foi dito: Aquele que é lento para a ira é melhor que o homem forte, e aquele que domina suas paixões é melhor que aquele que conquista uma cidade. Quem é rico? Aquele que está contente com sua parte [sorte], pois foi dito: Quando comes do trabalho de suas mãos, feliz és e o bem estará contigo. "Feliz és" — neste mundo; "e o bem estará contigo" — no Mundo Vindouro. Quem é honrado? Aquele que honra aos outros, pois foi dito: De fato, os que Me honram, honrarei, e os que Me desprezam, degradar-se-ão.

2.      Ben Azai disse: Corre para [executar mesmo] uma mitsvá fácil, e foge da transgressão; pois uma mitsvá atrai outra, e uma transgressão atrai outra; pois a recompensa de uma mitsvá é uma mitsvá, e a recompensa de uma transgressão é uma transgressão.

3.      Ele costumava dizer: Não desdenhes ninguém e não rejeites nada, pois não há homem que não tenha sua hora e não há coisa que não tenha seu lugar.

4.      Rabi Levitas de Iavne disse: Seja de espírito sumamente humilde, pois o homem mortal só pode esperar vermes. Rabi Iochanán ben Berocá disse: Quem profana o Nome Celestial em segredo, será castigado em público; inadvertida ou intencionalmente, é tudo o mesmo com relação à profanação do Nome.

5.      Rabi Ishmael ben Rabi Iossi disse: Aquele que estuda a Torah para ensinar, a ele é dada a oportunidade de estudar e de ensinar; e aquele que estuda para praticar [o estudado], a ele é dada a oportunidade de estudar e de ensinar, de observar e de praticar. Rabi Tsadoc disse: Não te separes da comunidade; e não atues como conselheiro [quando fores juiz]; não a transformes [a Torah] em uma coroa para te auto-engrandecer, nem em um machado para cortar. E assim também Hilel costumava dizer: Aquele que explora a coroa [da Torah para seus próprios interesses] perecerá. De fato, aprendeste disto: Quem obtém benefício pessoal das palavras da Torah, arrebata sua vida do mundo .

6.      Rabi Iossi disse: Quem honra a Torah é honrado pelos homens, e quem desonra a Torah é desonrado pelos homens.

7.      Rabi Ishmael, seu filho, disse: [Um juiz] que se abstém de ditar sentenças jurídicas [e em vez disso procura um acordo entre os litigantes] remove de si a inimizade, o roubo e [a responsabilidade de] um juramento desnecessário; mas aquele que se engrandece emitindo avidamente decisões jurídicas é um tolo, malvado e arrogante.

8.      Ele costumava dizer: Não ajas como juiz estando só, pois ninguém pode julgar sozinho, com exceção do Único [Deus]; e não digas [aos demais juízes]: "Aceitem minha opinião", pois eles [a maioria] podem dizer isto [para ti], mas tu não podes [dizer isto a eles].

9.      Rabi Ionatán disse: Quem cumpre a Torah na pobreza, por fim a cumprirá na riqueza; mas quem se descuida da Torah na riqueza, por fim descuidar-se-á dela na pobreza.

10.  Rabi Meír disse: Minimize tuas atividades comerciais e te ocupes da Torah; seja de espírito humilde diante de toda pessoa; se descuidares [do estudo] da Torah, terás diante de ti numerosas causas para descuidar-te dela; mas se te esforças muito na Torah, há abundante recompensa para te dar.

11.  Rabi Eliezer ben Iaacóv disse: Aquele que cumpre uma mitsvá adquire para si um defensor, e aquele que comete uma transgressão adquire para si um acusador. O arrependimento e as boas ações são como um escudo contra a retribuição [castigo]. Rabi Iochanán HaSandlar disse: Toda assembléia [cuja finalidade seja] por amor ao Céu, obterá resultados duradouros, mas aquela que não for por amor ao Céu não obterá resultados duradouros.

12.  Rabi Elazar ben Shamúa disse: Que a honra de teu aluno seja tão preciosa para ti como a tua própria [honra], e que a honra de teu colega seja como a tua reverência por teu mestre, e que a reverência por teu mestre seja como o temor ao Céu.

13.  Rabi Iehudá disse: Seja cauteloso no estudo, pois um erro inadvertido no [cumprimento devido ao insuficiente] estudo se considera uma transgressão voluntária. Rabi Shimón disse: Há três coroas: a coroa da Torah, a coroa do sacerdócio e a coroa do reinado; mas a coroa de um bom nome supera a todas.

14.  Rabi Nehorái disse: Exila-te a um lugar de Torah — e não presumas que ela te seguirá — pois serão teus colegas os que [mediante o debate e a discussão] farão com que esta se estabeleça claramente em ti; e não confies em teu próprio entendimento.

15.  Rabi Ianái disse: Não podemos compreender nem a serenidade [o bem-estar] do malvado nem as tribulações do reto. Rabi Matiá ben Charash disse: Sê o primeiro a saudar a quem encontras e é melhor ser um rabo de leões que uma cabeça de raposas.

16.  Rabi Iaacóv disse: Este mundo é como uma antecâmara do Mundo Vindouro; prepara-te na antecâmara para que possas entrar no salão.

17.  Ele costumava dizer: Uma hora de arrependimento e boas ações neste mundo é melhor que toda a vida do Mundo Vindouro; e uma hora de felicidade no Mundo Vindouro é melhor que toda a vida deste mundo.

18.  Rabi Shimón ben Elazar disse: Não aplaques a teu próximo no momento de sua ira; não o consoles enquanto o morto jaz diante dele; não lhe perguntes [sobre os detalhes] de sua promessa no momento em que a formula; e não trates de vê-lo no momento de sua degradação.

19.  Shemuel HaCatan disse: Não te alegres quando teu inimigo cai, e em seu tropeço não permitas que teu coração se alegre, para que Deus não o veja e lhe desagrade, e desvie Sua ira dele [para ti].

20.  Elishá ben Avúia disse: Aquele que estuda Torah quando criança a que se compara? À tinta escrita sobre papel novo; e aquele que estuda a Torah quando ancião, a que se compara? À tinta escrita sobre papel que foi apagado. Rabi Iossi bar Iehudá de Kfar HaBavlí disse: Aquele que aprende Torah dos jovens, a que se compara? Àquele que come uvas verdes e bebe vinho [novo] de seu tonel; enquanto que aquele que aprende Torah de anciãos, a que se compara? Àquele que come uvas maduras e toma vinho envelhecido. Rabi Meír disse: Não olhes a vasilha, e sim o que ela contém; pode haver uma vasilha nova cheia de vinho velho, ou uma vasilha velha na qual sequer haja [vinho] novo.

21.  Rabi Elazar HaCapar disse: A inveja, o desejo apaixonado e a busca de honrarias arrebatam o homem do mundo.

22.  Ele costumava dizer: Aqueles que nascem estão destinados a morrer; aqueles que estão mortos estão destinados a voltar a viver (outra versão: a ser ressuscitados); e aqueles que vivem [novamente] estão destinados a ser julgados. [Por isso, que o homem] saiba, faça conhecer, e tome consciência de que Ele é Deus, Ele é o Modelador, Ele é o Criador, Ele é o Discernidor, Ele é o Juiz, Ele é a Testemunha, Ele é o Litigante, Ele no futuro julgará. Bendito seja Ele, diante de quem não há iniqüidade, nem esquecimento, nem parcialidade, nem suborno; e saiba que tudo se faz segundo o cálculo. Que tua má inclinação não te assegure que a tumba será um lugar de refúgio para ti, pois contra tua vontade foste criado, contra tua vontade foste feitonascer, contra tua vontade vives, contra tua vontade morrerás, e contra tua vontade estás destinado a prestar contas perante o supremo Rei dos reis, o Santo, bendito seja.

CAPÍTULO CINCO

Todo Israel tem parte no Mundo Vindouro, pois foi dito: E teu povo, todos eles são justos; eles herdarão para sempre a terra; são o ramo de Meu plantio; a obra de Minhas mãos, da qual orgulhar-se.

1. Através de dez expressões o mundo foi criado. O que isto vem nos ensinar? afinal, através de uma só expressão ele poderia haver sido criado! Mas assim foi, para devidamente retribuir aos perversos que destroem o mundo que foi criado através de dez expressões, e para conceder ampla recompensa aos justos que mantém o mundo que foi criado através de dez expressões.

2. Houveram dez gerações desde Adam até Noach - para indicar quão grande é Sua paciência; pois todas [essas] gerações irritaram-No repetidamente, até que Ele trouxe sobre eles as águas do dilúvio. Houveram dez gerações desde Noach a Avraham - para que se saiba quão grande é Sua paciência; pois todas essas gerações irritaram-No repetidamente, até que veio Avraham, nosso patriarca, e recebeu a recompensa de todas elas.

3. Dez testes, Avraham, nosso patriarca, foi testado, e ele manteve-se firme em todos - para indicar o quão grande era o amor de Avraham, nosso patriarca, [por Deus]

4. Dez milagres foram realizados para nossos antepassados no Egito e dez sobre o Mar. Dez pragas trouxe o Santo, bendito seja, sobre os egípcios no Egito, e dez sobre o mar. Dez testes nossos antepassados testaram o Santo, bendito seja, no deserto, conforme foi dito: Testaram-me estas dez vezes e não escutaram Minha voz.

5. Dez milagres foram realizados para nossos antepassados no Bet Hamicdash: nenhuma mulher abortou por causa do cheiro da carne dos sacrifícios sagrados; a carne dos sacrifícios sagrados nunca se decompôs; não se viu uma mosca no matadouro; o Sacerdote não sofreu impureza corporal alguma em Yom Kipur; as chuvas não apagaram o fogo da pilha de lenha do altar; o vento não prevaleceu sobre a coluna vertical de fumaça [dissipando-a]; não se encontrou desqualificação no ômer; nem nos dois pães [de Shavuót], nem nos pães da proposição; ficavam comprimidos de pé, porém quando  se prostravam tinham amplo espaço; nenhuma serpente ou escorpião causou prejuízo em Yerushalaim; e nenhuma pessoa disse a seu semelhante: “O lugar está demasiado apertado para que possa pernoitar em Yerushalaim”

6. Dez coisas foram criadas na véspera de Shabat, no seu crepúsculo. São elas: a boca da terra [para tragar a Corach], a boca da fonte [no deserto], a boca do asno [de Bilam], o arco-íris, o maná, o bastão [de Moshé], o [verme] shamir, as letras [das escrituras], a inscrição [das primeiras Tábuas] e as [próprias] Tábuas. Alguns dizem que também o túmulo de Moshé Rabênu, e o carneiro de Avraham Avinu. E alguns dizem que também os espíritos de destruição, assim como o alicate [original], pois o alicate é feito com alicate.

7. Sete coisas caracterizam um tolo e sete um sábio. Um homem sábio: Não fala diante de quem o supera em sabedoria ou em anos; não interrompe as palavras de seu próximo; não se apressa em responder; pergunta o que é relevante ao tema em questão e responde objetivamente; responde o primeiro assunto, primeiro e o último, por último; com relação ao que não escutou ele diz “não escutei”; e reconhece a verdade. O oposto [destas virtudes] caracteriza o tolo.

8. Sete classes de castigos vêm ao mundo por sete classes de transgressões. Se alguns pagam o dízimo e outros não, uma fome de pânico se estabelece; alguns sofrem fome e outros têm abundância. Se todos decidiram não pagar o dízimo, cria-se uma fome por seca; e [se também decidiram] não separar a chalá, uma fome de destruição se estabelece. A peste vem ao mundo pelas penas de morte enumeradas na Torá que ao Bêt Din [Tribunal Judaico] não foi possibilitado aplicar; e por [utilizar ilegalmente] os frutos do ano sabático. A espada vem ao mundo pela demora da justiça, pela perversão da justiça e por aqueles que emitem decisões de Torá que não estão de acordo com a halachá.

9. Os animais selvagens vêm ao mundo pela prestação de falso juramento e pela profanação do Nome [Divino]. O exílio vem ao mundo pela idolatria, pelo incesto, pelo homicídio e por não deixarem que a terra descanse durante o ano sabático. Em quatro períodos [do ciclo sabático de sete anos] aumenta a peste - no quarto ano, no sétimo ano, no ano seguinte ao sétimo, e ao concluir, anualmente, a festividade de Sucót. No quarto ano, por negligenciarem o dízimo aos pobres do terceiro [ano]; no sétimo ano, por negligenciarem o dízimo aos pobres do sexto [ano]; e no ano seguinte ao sétimo, por [não observarem as leis relativas aos] frutos do ano sabático; ao concluir, anualmente, a festividade de Sucót - por sonegarem os presentes dos pobres [na colheita].

10. Há quatro tipos [de caráter] entre os homens: o que diz: “o que é meu é teu, e o que é teu é meu”, é ignorante; [o que diz] “o que é meu é meu, e o que é teu é teu” - esta é uma característica intermediária; e alguns dizem que esta é uma característica [do povo] de Sedom; “o que é meu é teu, e o que é teu é teu” é um chassid; “o que é teu é meu, e o que é meu é meu” é um perverso.

11. Há quatro tipos de temperamento: facilmente irritável e facilmente apaziguável - sua desvantagem é anulada pela sua vantagem [virtude]; difícil para irar-se e difícil de ser apaziguado - sua vantagem [virtude] é anulada pela sua desvantagem; difícil para irar-se e fácil para ser apaziguado, é um chassid; facilmente irritável e difícil para ser apaziguado, é um perverso.

12. Há quatro tipos de estudantes: rápido para captar e rápido para esquecer - sua vantagem é anulada pela sua desvantagem; lento para captar e lento para esquecer - sua desvantagem é anulada pela sua vantagem; rápido para captar e lento para esquecer - este é um bom legado; lento para captar e rápido para esquecer - este é um mau legado.

13. Há quatro tipos entre aqueles que fazem beneficência; o que deseja dar, porém que os outros não dêem - este é mesquinho com os outros; que outros dêem e ele não - este é mesquinho consigo mesmo; que ele dê e que outros também dêem, é um chassid; que ele não dê e que outros tampouco dêem, é um perverso.

14. Há quatro tipos entre aqueles que vão à Casa de Estudos: o que vai mas não participa [do estudo] obtém a recompensa por ir; o que pratica [o estudo em casa] porém não vai, obtém recompensa pelo ato [de estudar]; o que vai e participa  [do estudo] é um chassid; e o que não vai nem participa, é um perverso.

15. Há quatro características entre os que se sentam diante dos Sábios. [Alguns assemelham-se a] uma esponja, um funil, um coador e uma peneira; uma esponja, que absorve tudo; um funil, que toma de um lado e verte do outro; um coador, que permite que o vinho flua e retém o sedimento; e uma peneira, que permite que passe o pó da farinha e retém a sêmola.

16. Todo amor que depende de um determinado motivo - quando tal motivo desaparece, o amor cessa; mas se não depende de um determinado motivo - nunca cessará. Qual é o [exemplo de] amor que depende de um motivo? O amor de Amnon e Tamar. E qual é o [motivo de] amor que não depende de motivo algum? O amor de David e Yonatan.

17. Toda discussão por amor ao [que habita no] Céu terá um resultado duradouro; e aquela que não é pelo amor ao Céu, não terá um resultado duradouro. Qual é uma discussão por amor ao Céu? A discussão entre Hilel e Shamai. E qual não é por amor ao Céu? A discussão de Corach e toda sua facção.

18. Todo aquele que causa com que muitos tenham méritos, não haverá pecado que venha por sua causa; mas aquele que causa o pecado de muitos não se concederá a ele a oportunidade de arrepender-se. O próprio Moshé foi meritório e fez com que muitos obtivessem méritos, [motivo pelo qual] o mérito de muitos é atribuído a ele, conforme foi dito: Ele [Moshé] cumpriu a justiça de Hashem e Suas ordens junto com Yisrael. Yaravám ben Nevat, pecou e causou o pecado de muitos, [motivo pelo qual] o pecado de muitos é atribuído a ele, conforme foi dito: Pelos pecados de Yaravam, que ele cometeu e fez Yisrael cometer.

19. Todo aquele que possui as três características seguintes é dos discípulos de Avraham, nosso patriarca; e as três características opostas, é dos discípulos do perverso Bilam. Os discípulos de Avraham Avinu, possuem bom olhar, espírito humilde e alma dócil. Os discípulos do perverso Bilam possuem mau olhado, espírito arrogante e alma ambiciosa. Qual é a diferença entre os discípulos da Avraham Avinu, e os discípulos do perverso Bilam? Os discípulos de Avraham Avinu, comem [gozam dos frutos de suas boas ações] neste mundo e herdam o Mundo Vindouro, conforme foi dito: Para fazer com que os que Me amam herdem um bem eterno [o Mundo Vindouro], e seus depósitos Encherei [neste mundo]. Mas os discípulos do perverso Bilam herdam o Guehinom [purgatório] e descem ao abismo mais profundo, conforme foi dito: E Tu, Deus, os atirarás ao abismo mais profundo; os homens sanguinários e traiçoeiros não viverão a metade de seus dias; mas eu confiarei em Ti.

20. Yehuda ben Tema disse: Seja valente como o leopardo, ligeiro como a águia, veloz como o cervo, e forte como o leão, para cumprir a vontade de teu Pai [que está] no céu. Ele costumava dizer: o insolente se encaminha ao Guehinom, mas o envergonhado ao Paraíso. Que seja a Tua vontade, Hashem, nosso Deus e Deus de nossos pais, que se reconstrua o Bet Hamicdash breve em nossos dias, e outorga-nos nossa porção em Tua Torá.

21. Ben Bag Bag disse: Estude-a e estude-a [a Torá], pois tudo nela está; olhe profundamente nela; envelheça e amadureça nela, e não te movas de seu lado, pois não há nada mais edificante para ti que ela. Ben Hei Hei disse: A recompensa é proporcional ao esforço diligente.

22. Ele costumava dizer: aos cinco anos de idade, [deve-se começar] o estudo das Escrituras; aos dez - o estudo da Mishná; aos treze - [a obrigação de cumprir] as mitsvot; aos quinze - o estudo da Guemará [o Talmud]; aos dezoito - o matrimônio; aos vinte - a perseguição [de um meio de subsistência]; aos trinta - [se alcança] a força plena; aos quarenta - a compreensão; aos cinqüenta - [o talento para dar] conselho; aos sessenta - a velhice; aos setenta - a velhice madura; aos oitenta - [um sinal de] força [especial]; aos noventa - o corpo se enruga; aos cem - é como se estivesse morto, desaparecido e suprimido do mundo.

CAPÍTULO SEIS

1. Os sábios ensinaram [este capítulo] na linguagem de Mishná; Bendito é Aquele que os escolheu e a seus ensinamentos. Rabi Meir disse: Todo aquele que se ocupa com [o estudo da] Torá por amor a ela, é merecedor de muitas coisas; além disso, é digno de que todo o mundo houvesse sido criado por sua causa. É chamado de amigo, amado, o que ama ao Onipresente, o que ama às [Suas] criaturas; o que alegra ao [que habita no] céu, alegra às criaturas. [A Torá] o reveste de humildade e de temor [a Deus]; o predispõe para ser um tsadik [justo], um chassid [pio], honesto e fiel; o mantém afastado do pecado e o aproxima às ações meritórias. Dele [as pessoas] desfrutam o benefício do conselho e da sabedoria, compreensão e da força, conforme foi dito: O conselho e a sabedoria são meus; eu sou a compreensão, o poder é meu. [A Torá] outorga-lhe soberania, autoridade, e juízo para discernir; os segredos da Torá lhe são revelados, e ele torna-se como uma fonte que flui com força cada vez maior e como uma correnteza que jamais cessa. Se torna recatado, paciente, e perdoa o insulto do qual é objeto; [a Torá] o engrandece e o eleva por sobre todas as coisas.

2. Rabi Yehoshua ben Levi disse: Todos os dias uma Voz Celestial surge do Monte Chorev, que proclama e diz: “Ai das pessoas por causa da [sua] afronta à Torá!” Pois todo aquele que não se ocupa com a Torá é chamado de “reprovado”, conforme foi dito: [Como] um anel de ouro no focinho de um suíno, [é como] uma mulher formosa que lhe falta discrição. E também foi dito: As Tábuas são obra de Deus, e a escrita é a escrita de Deus, 'charut' - esculpida - nas Tábuas. Não leia charut, e sim cherut [liberdade], pois não há homem livre, salvo aquele que se ocupa com estudo da Torá; e todo aquele que se ocupa com o estudo da Torá se eleva, conforme foi dito: De Mataná ['o presente da Torá'] a Nachaliel ['a herança de Deus'], e de Nachaliel a Bamot  ['lugares elevados'].

3. Aquele que aprende de seu semelhante um único capítulo, uma única lei [da Torá], um único versículo, uma única declaração [bíblica ou rabínica], ou sequer uma única letra, deve render-lhe honra. Pois assim encontramos no caso de David, Rei de Yisrael, que aprendeu de Achitofel apenas duas coisas, e mesmo assim chamou-o de seu mestre, seu guia, seu mentor, conforme foi dito: Tu és um homem de minha estatura; tu és meu guia e meu mentor. Certamente extrai-se uma dedução óbvia: Se David, Rei de Yisrael, que não aprendeu de Achitofel, senão duas coisas, chamou-o de seu mestre, seu guia e seu mentor, aquele que aprende de seu semelhante um único capítulo, uma única lei [da Torá], um único versículo, uma declaração, ou mesmo uma única letra, quanto mais haverá de tratá-lo com honra. E honra somente é merecida pela Torá, conforme foi dito: os Sábios herdarão honra... e os integros haverão de herdar o bem. E o [autêntico] bem é somente a Torá, conforme foi dito: Eis que lhes dei um bom ensinamento, não abandonem a Minha Torá.

4. Assim é o caminho para [adquirir] a Torá: Coma pão com sal, beba água em pouca quantidade, durma sobre o chão, viva uma vida de privações, e empenha-te na Torá. Se fazes assim, “feliz serás e o bem estará contigo”. "Feliz serás - neste mundo; e "o bem estará contigo" - no Mundo Vindouro.

5. Não procures a grandeza para ti, nem cobiçe a honra; que teus atos excedam teus estudos. Não deseje a mesa dos reis, pois tua mesa é maior que a deles, e tua coroa é maior que a deles; e teu Patrão é digno de confiança de que te remunerará por tuas ações.

6. A Torá é maior que o sacerdócio e da realeza; pois a realeza é adquirida [junto] com trinta distinções, e o sacerdócio com vinte e quatro; mas a Torá é adquirida através das quarenta e oito seguintes qualidades: Com estudo, atenção auditiva, articulação verbal [do que foi estudado], percepção [intuitiva] do coração, reverência, temor, modéstia, alegria, pureza, auxílio aos Sábios, estreito vínculo com os colegas, debate perspicaz com os alunos, sobriedade, [conhecimento] das Escrituras [Tanach], da Mishná, reduzindo as atividades comerciais, reduzindo as preocupações com questões mundanas, reduzindo a indulgência no prazer [mundano], reduzindo o sono, reduzindo a conversa, reduzindo a risada, com lentidão para a ira, com um bom coração, com fé nos Sábios, com aceitação do sofrimento, consciente  de seu próprio lugar [- nível], satisfazendo-se com o que tem, fazendo uma cerca em torno de suas palavras, não reivindicando créditos para si, sendo amado, amando o Onipresente, amando as [Suas] criaturas, amando os caminhos da justiça [e bondade], amando os caminhos da retidão, amando a repreensão [crítica], mantendo-se distante das honrarias, não sendo arrogante de seu próprio conhecimento, não tendo prazer em proferir decisões [de halachá], compartilhando o fardo de seu próximo, julgando-o favoravelmente, colocando-o [no caminho] da verdade; colocando-o [no caminho] da paz, deliberando meticulosamente em seu estudo, perguntando e respondendo, escutando e somando [informações ao estudo], aprendendo para ensinar, aprendendo para praticar, aumentando a sabedoria de seu mestre, ponderando adequadamente o sentido do que aprende, e aquele que profere algo em nome de seu autor. Certamente estudaste que: Todo aquele que diz algo em nome de seu autor traz salvação para o mundo, conforme foi dito: E Ester disse ao rei em nome de Mordechai.

7. Grande é a Torá, pois concede vida àqueles que a praticam, neste mundo e no Mundo Vindouro, conforme foi dito: Porque eles [os ensinamentos da Torá] são vida para quem os encontra, e cura para toda sua carne; e também foi dito: Remédio será para teu corpo e tutano para teus ossos; e também consta: É uma árvore de vida para os que nela se apegam, e os que a apóiam são louvados; e também foi dito: Pois são uma grinalda de graça para tua cabeça e um colar para teu pescoço; e também consta: Dará à tua cabeça uma grinalda graciosa, uma coroa de glória te concederá; e também foi dito: De fato, por meu intermédio [da Torá] se multiplicarão teus dias, e  anos de vida serão acrescentados para ti; e também consta: Longa vida está à sua destra, riqueza e honra à sua esquerda; e também foi dito: Longos dias, anos de vida e paz serão aumentados para ti.

8. Rabi Shimon ben Yehuda disse em nome de Rabi Shimon ben Yochai: A beleza, a força, a riqueza, a honra, a sabedoria, a velhice, a velhice madura e os filhos são convenientes aos justos e convenientes ao mundo; conforme foi dito: A velhice madura é uma coroa de esplendor, há de se encontrar na senda da retidão; e também foi dito: O esplendor dos jovens é a sua força, e a beleza dos anciãos é chegar a uma velhice madura; e também consta: Os netos são a coroa dos anciãos, e o esplendor dos filhos são os pais; e também foi dito: A lua se sentirá inferiorizada e o sol se envergonhará quando Hashem dos exércitos reinar no Monte Tsiyon e em Yerushalaim, e haverá honra frente a Seus anciãos. Rabi Shimon ben Menassia disse: Estas sete qualidades que os Sábios enumeraram [como convenientes] para os justos - todas elas se cumpriram em "Rabi" [Yehudá HaNassí] e em seus filhos.

9. Rabi Yossê ben Kismá disse: Certa vez andava pelo caminho, quando deparou-se comigo certo homem. Saudou-me: "Shalom", e eu lhe respondi: "Shalom". Ele me disse: "Rabi, de que lugar és?" Respondi-lhe: "Sou de uma grande cidade de eruditos e sábios". Ele me disse: "Rabi, se estiver disposto a viver conosco em nosso lugar, te daria um milhão de dinares de ouro, pedras preciosas e pérolas". Respondi-lhe: "Mesmo que desses toda a prata e o ouro, as pedras preciosas e as pérolas do mundo, não moraria em nenhum lugar que não fosse um lugar de Torá". E assim está escrito no livro de salmos de David, Rei de Yisrael: A Torá de tua boca é para mim mais preciosa do que milhares de [peças de] ouro e prata. Além disso, no momento em que o homem abandona este mundo, não o acompanharão nem a prata nem o ouro, nem as pedras preciosas, nem as pérolas, mas somente [o conhecimento d]a Torá e as boas ações, conforme foi dito: Quando caminhas, [a Torá] te guiará; quando te deitas, te cuidará; e quando despertas, falará por ti. "Quando caminhas te guiará" - neste mundo; "Quando te deitas, te cuidará - na tumba; "E quando despertas, falará por ti" - no Mundo Vindouro. E também é dito: A prata é Minha e o ouro é Meu diz Hashem [o Senhor] dos exércitos.

10. Cinco aquisições o Santo, bendito seja, tornou Suas [próprias posses] em Seu mundo e estas são: A Torá é um aquisição; o céu e a terra são uma aquisição; Avraham é uma aquisição; o povo de Israel é uma aquisição; o Bêt Hamicdash é uma aquisição. De onde sabemos com relação à Torá? Pois está escrito: Hashem me fez [a Torá] a Sua posse antes da criação, antes de Suas obras em épocas passadas. De onde sabemos com relação ao céu e a terra?  Pois está escrito: Assim disse Hashem: O céu é Meu trono, e a terra é Meu escabelo; Que casa [então] podes tu construir para Mim e onde está o lugar de Meu descanso? E também foi dito: Quão multiformes são Tuas obras, Hashem! Tu as fizeste todas elas com sabedoria; a terra está cheia de Tuas posses. De onde sabemos com relação a Avraham? Pois está escrito: "E ele o abençoou e disse: Bendito seja Avraham pelo Deus Supremo, possuidor do céu e da terra". De onde  sabemos com relação ao povo de Yisrael? Pois está escrito: Até que Teu povo passe, Hashem; até que o povo, que Tu adquiriste, passe; e também foi dito: Ao povo santo que está na terra e aos nobres - neles está todo Meu deleite. De onde o sabemos com relação ao Bêt Hamicdash? Pois está escrito: O lugar que Tu, Hashem, fizeste para Tua morada; o Santuário que Tuas mãos, Hashem, estabeleceram; e também foi dito: E ele os levou ao lugar de Sua Santidade, a montanha [do Bêt Hamicdash] que Sua destra adquiriu.

11. Tudo o que o Santo, Bendito seja, criou em Seu mundo, criou exclusivamente para Sua glória, conforme foi dito: Tudo o que é chamado com Meu Nome, na verdade, é por Minha glória que Eu o criei, Eu o formei e Eu o fiz; e também foi dito: Deus reinará por toda a eternidade.

A SABEDORIA JUDAICA EM 162 PROVÉRBIOS IÍDICHE

A SABEDORIA JUDAICA EM 162 PROVÉRBIOS IÍDICHE


1. Quem lida com mel, sempre tem chance de uma lambida.
2. Modéstia em excesso não deixa de ser meia vaidade.
3. Para matzes e mortalhas, sempre se arranja dinheiro.
4. Não te preocupes com o amanhã quando ainda tens o hoje para te preocupar.
5. De que vale uma boa cabeça, se duas pernas não a sustentam ?
6. Falsos amigos são como aves de arribação: fogem no inverno.
7. O medo da desgraça é bem pior que a própria desgraça.
8. Para o ignorante, a velhice é o inverno; para o sábio, é a estação da colheita.
9. Um remendo feio é ainda mais útil que um buraco lindo.
10. Mais vale a pior das pazes que o melhor das guerras.
11. O passo do asno corresponde ao tanto de cevada que lhe dás.
12. É mais fácil enfrentar a desgraça bem alimentado do que com fome.
13. Guia o teu cavalo com aveia, e não com o chicote.
14. Boas notícias se ouvem de longe.
15. De longe podes enganar os outros, de perto só a ti mesmo.
16. Se tens fama de madrugador, podes dormir até tarde.
17. As orações sobem, as bênçãos descem.
18. No alfaiate sempre encontras um fio de linha.
19. A vida não passa de um sonho, mas cuidado para não acordar.
20. Sorte do ignorante é ele não saber que não sabe.
21. Isso te ajudará tanto quanto ventosas a um cadáver.
22. O bom mentiroso precisa de uma boa memória.
23. A verdade é tão pesada que poucos a suportam.
24. Se fabricas freios para teus animais, com maior razão para teus impulsos.
25. Na casa de banhos, todos somos iguais.
26. Quem engana o peixe não é o pescador nem a vara, mas a minhoca.
27. No fundo do espelho tens o teu melhor amigo.
28. Amizade que não foi testada não é amizade nem nada.
29. Quando o sábio erra, erra prá valer.
30. Uma montanha não pode encontrar outra. Um homem a outro, sim.
31. Não há homem que não tenha sua loucura.
32. A vida sempre termina em lágrimas.
33. O mentiroso repete tanto suas mentiras, que ele próprio acaba acreditando.
34. A mulher é como veludo: quem não gosta de acariciar ?
35. A mãe, com seu manto, acaba encobrindo até os defeitos dos filhos.
36. A tolice é uma planta que cresce sem que se precise regar.
37. A palavra é como a flecha: ambas têm pressa de chegar.
38. Uma só mentira é apenas uma mentira; duas, são duas mentiras; mas três, aí já se trata de política !
39. Quem olha coisas altas deve segurar o chapéu.
40. Uma boa dor de dentes faz esquecer qualquer dor de cabeça.
41. Quando as coisas melhoram é porque, de fato, estão piorando.
42. Quem está por baixo, pelo menos está livre de cair .
43. O sábio sabe o que diz. O tolo diz o que sabe.
44. Os sapatos da criança pobre crescem com seus pés.
45. Tudo é bom, mas a sua hora.
46. O asno se conhece pelas orelhas. O tolo, pela língua.
47. Com o coração cheio, os olhos transbordam.
48. Antes um pé torto que uma cabeça torta.
49. Coisas boas são lembradas, as más são sentidas.
50. O homem é o que é, não o que foi.
51. As comportas das lágrimas nunca estão fechadas.
52. Não fosse a luz, não haveria sombras.
53. Quem não presta para si, não presta para os outros.
54. Os vermes roem os mortos, as preocupações os vivos.
55. Se o gato usar luvas, não apanha nenhum rato.
56. Se meu avô tivesse rodas, seria uma carroça.
57. Litvac (judeu da Lituânia) é tão esperto que já se arrepende antes mesmo de cometer o pecado - mas o comete.
58. Chora perante D’us; ri perante os homens.
59. Mais vale uma palavrinha antes que dois palavrões depois.
60. Só com sabedoria não fazes a feira.
61. O dissabor está para o homem como a ferrugem para o ferro.
62. Para quem não pode comer galinha, caviar também serve.
63. A meia verdade é uma mentira inteira.
64. A pobreza não é nenhuma vergonha,...mas também não é nenhuma honraria.
65. Quando D’us quer, uma vassoura também dá tiros.
66. Filhos pequenos não nos deixam dormir, grandes não nos deixam viver.
67. Eu te peço, ó Criador do mundo, não me eleves ao céu, mas também não me roles por terra.
68. Todo morro-acima tem seu morro-abaixo.
69. Não sei cantar, mas entendo do assunto.
70. Desde que foi criada a morte, ninguém está seguro da vida.
71. A coincidência é o meio que D’us encontrou para se manter anônimo.
72. O chapéu tem bom tamanho, a cabeça é que é pequena.
73. Se o silêncio é recomendável aos sábios, quanto mais aos parvos.
74. Quando um cão ladra, outro logo o acompanha.
75. A tolice alheia é uma piada, a nossa, uma desgraça.
76. Um tolo sabe avaliar o outro.
77. Não se vive de alegria, nem se morre de tristeza.
78. Toda corte tem seu idiota.
79. Quando teu inimigo estiver caído, não deves te alegrar, mas nem por isso precisa correr para reerguê-lo.
80. Quando três pessoas te chamam de louco, deves dizer: ‘bilú-bilú’.
81. Três coisas não poderás ocultar: o amor, a tosse e a pobreza.
82. Com mentiras poderás ir longe, mas não voltarás.
83. A cabeça, não prestando, o resto podes jogar fora.
84. Não te esqueças: a verdade é uma só, mas tem várias faces.
85. O mundo não simpatiza com os delatores, nem com os moralistas.
86. Pior que dinheiro perdido, é tempo perdido.
87. Quem tem uma linda mulher é um péssimo amigo.
88. Graças a D’us, o pobre não comete pecados caros.
89. Quanto mais doce teu pecado, mais amargo teu arrependimento.
90. A lágrima está para a alma, como o sabão para o corpo.
91. Toda nora é um pedaço de sogra.
92. Furúnculo não é doença grave, ainda mais sob axila alheia.
93. Câncer, shmâncer, contanto que tenhas saúde.
94. Peixes e hóspedes se estragam no terceiro dia.
95. A mulher te coloca em pé ou te deita em terra.
96. Não te adiantam preces ou sabedoria quando as cartas não vêm.
97. Quando a sorte te bafeja, até mesmo um boi te dará um bezerro.
98. Três coisas te serão boas em pequenas doses e nocivas em grandes: o fermento, o sal e a hesitação.
99. O álcool é mau mensageiro: tu o envias à barriga, ele sobe à cabeça.
100. Nem ao médico nem ao cirurgião desejarás ano bom.
101. Não te esqueças: 'Do pó viemos, ao pó voltaremos'. Mas até lá, que tal um bom trago?
102. Nenhum judeu vive sem milagres.
103. Se o cavalo tivesse algo a dizer, certamente diria.
104. De que te servem a lanterna e os óculos se desejas enxergar?
105. Deves tomar cuidado quando estás diante de um bode, atrás de uma mula, ou a qualquer lado de um tolo.
106. Não ofereças pérolas aos que lidam com hortaliças e cebolas.
107. Poderás viver sem temperos, mas nunca sem trigo.
108. Mesmo no azar é bom que tenhas um pouquinho de sorte.
109. A tolice, mesmo bem sucedida, não deixa de ser tolice.
110. A verdade não morre nunca, mas leva vida apertada.
111. Vende a última camisa, contanto que sejas rico.
112. Não tenhas medo, se não houver outra escolha.
113. Com dinheiro comprarás tudo, menos bom senso.
114. Do mesmo boi não tirarás duas vezes a pele.
115. A sorte lhe batendo à porta, dá-lhe logo uma poltrona.
116. Será mais fácil aplacar a ira do homem do que a ira da mulher, pois o primeiro foi criado de argila mole, ao passo que a segunda, de um osso duro.
117. Tens três amigos: teus filhos, teus bens e tuas boas ações.
118. Consultando o rebe (rebe= o líder mais sábio de um grupo de rabinos), ele achará sempre alguma coisa.
119. Quem vive como um diabo, torna-se um demônio.
120. Quem fala demais, acaba falando de si.
121. Um porco sobre o banco, está a meio caminho para a mesa.
122. Quando se engraxa, o carro anda bem.
123. Quem dança em todos casamentos, chora em todos funerais.
124. Quando se tosquia uma ovelha, os carneiros tremem.
125. Quando se sente amargura no coração, de pouco adianta adoçar a boca.
126. Não havendo nada na panela, nada haverá no prato.
127. Assim gira o mundo inteiro: uns têm a bolsa, outros, o dinheiro.
128. Consulte a quem quiser, mas só decida com a própria cabeça.
129. Quando se varre a casa, acaba-se encontrando tudo.
130. Antes dor no coração que vergonha na cara.
131. Antes a maldade dos bons, que a bondade dos maus.
132. Antes ser criticado que consolado.
133. Sangue não é água: no mínimo é mais denso.
134. Brit milá, Bar mitsvá, casamento, enterro – tudo isso convém pagar à vista.
135. melhor cavalo precisa de um chicote. A criatura mais sábia, de um conselho. A mulher mais virtuosa, de um bom homem.
136. A pobreza estampa-se primeiro no rosto.
137. A verdade está nos olhos. A mentira, atrás deles.
138. O inferno não é tão mau quanto o caminho que leva a ele.
139. A honra se recebe não pelo que se recebe, mas pelo que se dá.
140. Vingança é veneno. Por melhor que seja, mata.
141. A verdade está toda com D’us, e um pouco conosco.
142. Ele não crê em D’us, mas Lhe pede ajuda.
143. O medíocre não está tão perto do sábio, nem tão longe do tolo.
144. O teimoso não tem cura.
145. Não há inimigos gratuitos, temos sempre de pagar por eles.
146. D’us nos livre de um só filho e de uma só camisa.
147. O sucesso nos embriaga sem vinho.
148. Com D’us não se brinca: primeiro, porque é proibido; segundo, porque Ele próprio não deixa.
149. De cada resposta pode-se tirar uma nova pergunta.
150. Caridade também é questão de hábito.
151. Até mesmo o Rebe tem seus inimigos.
152. Sábado, até mesmo o pecador no inferno tem seu descanso.
153. Tintas secam logo; lágrimas, nem sempre.
154. Em cada nova canção encontra-se uma velha melodia.
155. Ninguém precisa de calendário para morrer.
156. Dois tipos de pessoas sempre derrapam: o tolo entre sábios, e o sábio entre tolos.
157. Os pobres se dão mal tanto no inverno quanto no verão.
158. Poucas palavras, contanto que exprimam a verdade.
159. Não há besteira maior do que tentar ser mais esperto do que todos.
160. Ervas daninhas crescem de noite.
161. O que um tolo consegue estragar, dez sábios não conseguem reparar.
162. Cada homem carrega o seu pacote.


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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O Que Tem um nome

O que tem num nome?

Home » coisas judaicas » mística judaica » Nomes » Sobrenomes » O que tem num nome?

Vale a pena mudar nossos nomes para mudar nossa sorte? A resposta vem nada mais nada menos do que o antigo livro do Zohar, que revela os segredos contidos nos nomes e letras.Alguma vez tu já leste um livro de numerologia tentando entender o significado secreto por trás do teu nome.. ou de outro alguém.. teus filhos, amigos..? Tal fascinação por nomes, letras e seus significados ocultos.. é algo real ou pura baboseira?E se for real, podemos manipular nossos nomes para mudar nossa sorte para melhor, como muitas pessoas tentam fazer?
O livro do Zohar traz luz para tais questões no “artigo sobre as letras” que inicia assim:
Quando o criador pensou em criar o mundo, todas as letras do alfabeto vieram a ele na ordem inversa. Da ultima letra (TAV) à primeira (ALEPH). A letra TAV foi a primeira e disse “Mestre do mundo! É bom, e vindo de ti, criar o mundo comigo. Porque eu sou a marca no teu anel, chamada EMET(Verdade), que termina com a letra TAV. E é por isso que tu és chamado verdade e por isso beneficiaria o rei começar o universo com a letra TAV e criar o mundo através dela. O criador respondeu - “Tu é bonita e sincera,mas não tem o mérito do mundo que eu conduzi a ser criado por tuas propriedades”.
Nesse artigo divertido e colorido, o texto antigo gradualmente revela os segredos contidos em cada letra. O artigo procede descrevendo como cada letra ficou organizada, esperando sua vez de falar com o criador para poder pedir que fosse usada para criar o mundo. Interessante notar que as letras vieram ao criador na ordem inversa, da última letra do alfabeto, TAV à primeira, ALEPH.O criador escuta com paciência cada letra e dá uma chance de ouvir seus argumentos. Mas a única letra que ele finalmente escolheu para criar o mundo não é nada mais do que BET.
Com a letra BET, o mundo foi criado
A letra BET entrou e disse ao criador: “Criador do mundo,seria bom criar o mundo comigo, porque por mim tu está abençoado abaixo e acima. Porque BET é BERCHAH(Abençoar).” O criador replicou a BET: Sem dúvida, eu vou criar o mundo contigo, e tu deve ser a base do mundo!”
Porque o criador escolheu nada mais do que a letra BET para criar o mundo?E porque a história segue a ordem inversa das letras? E o que essa história cabalística, divertida tem a ver conosco?
O significado oculto das letras
Cada uma das 22 letras hebraicas leva a uma revelação espiritual que um cabalista sentiu. Todas as várias combinações das letras - as palavras, sentenças e frases encontradas nos livros sobre cabala - que mostram toda a realidade espiritual que foi atualmente sentida pelos cabalistas que escreveram tais livros.
Essa realidade está disponível para cada e um de nós. Podemos avançar no caminho que nos leva ao criador, gradualmente, expandindo nosso entendimento e sensação do interno (oculto) significado de cada letra. Nós vamos então descobrir cada camada após camada da realidade spiritual.
É como subir uma montanha cujas pedras são as letras - as qualidades do mundo espiritual.Entretanto,o criador é posicionado no topo da montanha, e nós, lá embaixo, no chão. É por isso que o livro do Zohar fala sobre as letras na ordem inversa, começando com TAV e terminando com ALEPH; está nos dizendo, da nossa perspectiva, como subir o ‘caminho’ até o topo da montanha para chegar ao criador, de baixo para cima.
Isso nos traz a essência da história do livro do Zohar sobre as letras - que não é falar sobre elas, mas é, sem dúvida, descrever a jornada interna espiritual da pessoa. Começamos tal jornada de um estado onde estamos completamente remotos do criador (representado pela última letra do alfabeto - TAV). Então, passo a passo, passamos por todas as letras (estados espirituais) até finalmente chegar a total revelação de sua atitude conosco - de perfeito amor e integridade (representada pela letra BET). Quando chegamos a esse estado espiritual, descobrimos seu amor em relação a nós e ganhamos a habilidade de amá-lo. Através dessa nova atitude, ascendemos a nada mais, nada menos do que o próprio nível do criador. Nesse ponto, descobrimos mais uma letra - a letra ALEPH, que é cabeça do alfabeto.
Mude tua percepção, não teu nome
Nomes, palavras e frases são combinações de letras, e então também, nos informam vários discernimentos e níveis da atitude do criador conosco. Mais especificamente, eles são vários níveis de revelação da sua atitude para com uma pessoa. A ordem e conexões entre as letras numa palavra ou sentença formam um caminho de sentimentos espirituais que mudam. São descrições de como esses sentimentos se alternam e substituem um por outro dentro da pessoa que está subindo a montanha para chegar ao criador. Se mantivermos esse oculto significado das letras em mente, então ler um texto cabalístico é uma real experiência espiritual, uma verdadeira entrada para o mundo espiritual.
Isso nos traz de volta a questão dos nomes e seus significados. Na cabala, o nome de uma pessoa é determinado pelo nível espiritual que ela atingiu. Enquanto nos movemos para próximo do criador, revelando sua atitude mais e a mais, revelamos diferentes ordens e combinações das letras. Então, nossos nomes vão continuamente mudar de acordo com nosso nível espiritual.
E somente no mais alto nível espiritual uma pessoa obtém um nome real. Isso é diferente do que mudar nossos nomes artificialmente para tentar mudar nossa sorte. Se realmente quisermos mudar nossa vida para melhor e descobrir nomes ideais, então precisamos subir a ladeira espiritual e desenvolver nossa percepção espiritual. Lá, no mundo espiritual, com certeza encontraremos os nomes que tanto procuramos.

sábado, 20 de dezembro de 2014

                           INTERESSANTE - LEIAM

Internacional

Entrevista - Shlomo Sand

“Não aceito a legitimação racial do Estado de Israel”
O escritor israelense Shlomo Sand faz duras críticas a seu país e explica os conceitos que baseiam o livro "Como deixei de ser judeu"
por Leneide Duarte-Plon — publicado 28/11/2014 05:27, última modificação 28/11/2014 10:46
 
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Divulgação
 Shlomo Sand
Para Shlomo Sand, ser judeu hoje é integrar um "clube exclusivo", situação que o incomoda
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A invenção de povos: uma reflexão necessária
Como Israel coloca em risco o apoio dos EUA
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"Nosso projeto não é político, mas humano"
Suécia reconhece o Estado da Palestina
“Tanto os EUA quanto Israel querem marginalizar os palestinos”
Pesquisa revela campos de concentração para palestinos após a fundação de Israel
 
 
De Paris

Historiador e professor da Universidade de Tel Aviv, o escritor Shlomo Sand se define como um "judeu laico e ateu". Mas isso é possível? Por julgar que não, ele escreveu o livro Comment j’ai cessé d’être juif (Como deixei de ser judeu), publicado este ano em francês. No livro, que será lançado em português pela editora Benvirá, Sand escreve que tem consciência "de viver numa das sociedades mais racistas do mundo ocidental, na qual o racismo está presente nas leis, nas escolas, na mídia".

Segundo Shlomo Sand, o barril de pólvora prestes a explodir não vai conhecer a paz "enquanto não houver uma verdadeira pressão internacional sobre o Estado de Israel". "Para salvar Israel de si mesmo, o mundo deve acordar, sobretudo os Estados Unidos", diz.

Nesta entrevista, feita por telefone na França, onde se encontrava de passagem, ele diz que Hitler venceu a guerra ideológica pois, exatamente como os nazistas, "os sionistas consideram a identidade judaica como algo à parte, uma etnia e mesmo às vezes com bases raciais". Diz que algo tribal, racista venceu "porque os sionistas definem o Estado israelense não como o Estado de todos os cidadãos, mas dos cidadãos judeus". E informa: "Na Universidade de Tel Aviv há laboratórios que pesquisam desesperadamente o DNA judeu para provar que os judeus são um povo-raça", diz.

CartaCapital: Depois de escrever dois best-sellers sobre a invenção do "povo judeu" e da "terra de Israel", o senhor lançou este ano na França Comment j’ai cessé d’être juif. É possível deixar de ser judeu e por que o senhor não quer continuar a sê-lo?
Shlomo Sand: Aos olhos do antissemita não se deixa de ser judeu porque para ele isso é uma coisa racial, da essência da pessoa e não se pode deixar de pertencer a uma raça. Aos olhos do sionista é a mesma coisa. Recebi muitas cartas de sionistas que me diziam ser impossível, já que a visão deles é essencialista, ser judeu está no sangue. Penso que ser judeu na História é ser um crente muito, muito especial. O Judaísmo é a mãe dos monoteísmos, é uma religião muito importante, que deu origem a dois outros monoteísmos, o cristianismo e o islã. Mas como venho da segunda geração de ateus laicos me perguntei sempre "Por que sou judeu?. "Sou realmente judeu?". Escrevi o livro por duas razões.

CCC: Quais?
SS: Vivo num Estado que se define como "Estado Judaico". Ora, um quarto da população não é considerada judia e não pode tornar-se judia, senão pela conversão. Como sou um cidadão de um Estado que se define como judaico, sou um cidadão privilegiado porque o Estado não pertence aos seus cidadãos árabes nem cristãos. Como minhas origens são judaicas, isto é, sou descendente de pessoas que sofreram muito tempo essa política segregacionista que perseguiu os judeus, não quero ser judeu num Estado Judaico. Se esse Estado fosse de todos os cidadãos israelenses, não teria escrito esse livro.

A segunda razão é que penso que a identidade judaica laica é vazia, não tem um peso cultural, linguístico, etc. Os judeus laicos no mundo não falam a mesma língua, não comem os mesmos alimentos, não ouvem as mesmas músicas. Woody Allen não sabe o que é a música israelense de hoje, não sabe o que se come em Israel, não pode falar minha língua. Queria compreender o que é um judeu laico excluindo a memória. Sempre me defini como judeu dizendo que enquanto houvesse um antissemita no mundo eu seria judeu. Mas parei de me definir assim. Pode-se virar cristão, virar judeu religioso, virar socialista, brasileiro, ou francês, mas como virar judeu laico? Existe uma forma de se virar judeu laico sem ter nascido de mãe judia? No momento em que compreendi que faço parte de um clube exclusivo que não pode receber novos membros, decidi que não quero pertencer a um clube exclusivo em pleno século XXI.

CC: Em Israel, a menção "judeu" vem inscrita na carteira de identidade. O senhor escreve: "Em Israel e no estrangeiro, os sionistas do início do século XXI rejeitam o princípio da nacionalidade israelense para somente admitir uma nacionalidade, a judia". Um pouco depois: “Cada vez mais, tenho a impressão de que sob certos aspectos Hitler saiu vitorioso da Segunda Guerra Mundial". Pode explicar?
SS: Hitler ganhou a guerra ideológica, de certo modo. Ele tinha decidido que os alemães judeus não eram alemães, que eram uma raça à parte, uma etnia à parte, um povo à parte. O alemão judeu não estava de acordo com isso, sentia-se alemão, era um cidadão alemão, tinha uma nacionalidade alemã. E por que Hitler ganhou ideologicamente? Porque os sionistas consideram a identidade judaica como algo à parte, uma etnia e mesmo às vezes com bases raciais. Na universidade de Tel Aviv, onde trabalho, há laboratórios que pesquisam desesperadamente o DNA judeu para provar que os judeus são um povo-raça que partiu há dois mil anos da terra que se chama Israel, passando por Moscou e fazendo outros percursos até retornar à Palestina. Digo que algo tribal, racista, ganhou porque os sionistas definem o Estado israelense não como o Estado de seus cidadãos mas dos cidadãos judeus. Não discuto a existência de Israel, discuto a identidade etnocêntrica da política israelense.

CC: O senhor se diz laico e ateu. Como é possível isso num país que se define como um Estado Judaico, construído a partir da história de um povo que crê numa religião revelada e no destino de povo eleito de Deus?
SS: Não é possível e por isso me sinto mal em Israel. Queria mudar toda a cultura política israelense. Queria “dessionizar” o Estado de Israel. Digo no meu livro que o Estado de Israel não consegue definir quem é judeu por critérios laicos. Eles têm dois modos de definir quem é judeu: pela biologia, pela genética, ou pela religião. Pelos critérios religiosos, um judeu é alguém que se converteu à fé judaica ou quem nasceu de mãe judia. E o Estado pertence somente a essas pessoas. Assim sendo, um judeu brasileiro que mora em São Paulo pode ser cidadão de Israel. Mas Israel não é o Estado de meus alunos árabes que trabalham comigo na Universidade de Tel Aviv. Se Israel vai continuar a manter uma identidade etnocêntrica semi-religiosa com uma visão muito profunda das raças e com uma visão profunda de povo escolhido, penso que não preciso ser profeta para dizer que isso vai destruir Israel. Não há futuro para um Estado assim.

CC: O senhor considera que Israel, fundado dentro dos princípios da religião que reconhece um “povo judeu” e o vê como “povo eleito” de Deus, é um Estado teocrático?
SS: Não, porque não é a verdadeira fé em Deus que está no centro da política. São os nacionalistas que se utilizam da religião. O princípio do Estado é etno-religioso mas não é a religião que está no centro. As elites laicas têm necessidade da religião para se afirmar e por isso Israel se torna cada vez mais um Estado etnocrático.

CC: Os judeus franceses são intransigentes com os negacionistas que negam a existência dos fornos crematórios e o genocídio judeu. Em Israel, nega-se a Nakba, a expulsão e o massacre dos palestinos pelos sionistas, em 1948. Esses dois negacionismos têm pontos em comum?
SS: Não, o primeiro era um projeto de eliminação do outro e no projeto colonialista judaico o objetivo era de empurrar o outro para longe. Em 1948, houve massacres mas não eram uma característica da colonização sionista. O projeto do nazismo era eliminar o outro, não apenas expulsá-lo. Negar o sofrimento dos judeus durante a Segunda Guerra mundial na Europa é condenável mas negar a Nakba é também condenável, mesmo se são realidades diferentes. Meu dever hoje é lutar contra o esquecimento da Nakba. Com esse ocultamento, não se pode construir a paz.

CC: O Estado da Palestina, reconhecido por 135 países entre os 193 que fazem parte da ONU, é ainda viável? Por que Israel não quer um Estado palestino nas fronteiras estabelecidas pela ONU em 29 de novembro de 1947?
SS: O Estado de Israel é reconhecido com suas fronteiras de antes da guerra de 1967. Eu também reconheço a existência desse Estado com as fronteiras de 1967. Se um Estado palestino ao lado de Israel é ainda viável, não sei. Mas não vejo outra solução. Moralmente, como não sou nacionalista, desejaria a solução de um Estado para as duas identidades. Mas como não creio que isso é realizável, defendo a solução de dois Estados com as fronteiras de 1967. Mas não creio que em Israel se possa realizar isso porque a inércia no sionismo é a colonização. O sionismo nunca parou a colonização do fim do século XIX até hoje. Mesmo entre 1948 e 1967 havia uma colonização sionista em Israel. Tomaram as terras de palestinos israelenses e deram aos judeus israelenses. Por que Israel não aceita um Estado palestino? Porque os sionistas pensam que o centro desse Estado é o centro da antiga "pátria dos judeus", Hebron e Jericó. Esse é o centro do imaginário bíblico que teria sido a pátria dos judeus. Para muitos, sobretudo para as elites políticas e intelectuais, renunciar a isso é muito difícil. Enquanto não houver uma verdadeira pressão internacional sobre o Estado de Israel, não haverá paz. Para salvar Israel de si mesmo o mundo deve acordar, sobretudo os Estados Unidos. Eles podem pedir que Israel respeite o direito dos palestinos, saia dos territórios ocupados e favoreça a criação do Estado palestino. Em Israel, não vejo um movimento político capaz de realizar esse projeto.

CC: O senhor pensa que o movimento pelo boicote (BDS) a Israel, criado por Noam Chomsky, Desmond Tutu, Stéphane Hessel, Ken Loach, entre outros, pode ser eficaz para lutar contra a segregação e o apartheid dos palestinos em Israel?
SS: Aceito hoje em dia qualquer pressão sobre Israel, menos o terrorismo.

CC: O escritor Amos Oz denunciou este ano os “neonazistas hebreus”, como ele chama os extremistas judeus que realizaram uma onda de atentados racistas contra os cristãos e os muçulmanos. O que o senhor pensa da expressão?
SS : Como nunca comparei o sionismo ao nazismo, não comparo os extremistas sionistas aos nazistas porque não é comparável e isso é importante. Enquanto não existe um projeto de genocídio, nada pode ser comparado ao nazismo. Os extremistas racistas me enojam, mas na história não somente os nazistas foram racistas. Tenho certeza de que no Brasil há racistas, sempre houve racistas que não queriam viver com os negros ou com os índios e não são comparáveis aos nazistas. Não se pode comparar o extremista sionista execrável aos nazistas.

CC: Os israelenses gostam de escrever que Israel é a única democracia do Oriente Médio. O que o senhor pensa disso? O senhor escreve que gostaria de "tornar compatíveis as leis constitucionais de Israel com os princípios democráticos".
SS: Existe um jogo liberal em Israel, por isso o definiria não como uma democracia mas como uma etnocracia liberal. Israel não poderia nem mesmo adotar os princípios da monarquia britânica, nem os da democracia brasileira porque não há igualdade de todos os seus cidadãos. Não acredito que existam democracias perfeitas. Mas há Estados mais democráticos que outros. A democracia não é somente uma certa liberdade de expressão, liberdade dos partidos políticos. Antes de tudo, uma democracia é um Estado de todos os seus cidadãos. Um Estado democrático não pode pertencer a uma parte de seus cidadãos. E como Israel se define como um Estado judaico e não como um Estado israelense, não pode ser democrático. E como o poder israelense procura o bem dos judeus e não o dos israelenses, ele não pode ser considerado democrático. Um quarto da população não é parte integrante desse Estado. O Estado deve ser um lugar de identificação, deve servir a todos os cidadãos. Por outro lado, de forma relativa, Israel é um país liberal. O fato que eu possa ser professor da Universidade de Tel Aviv com minhas ideias mostra que o Estado é pluralista e liberal. Não podem me demitir.

CC: Como seu livro foi recebido em Israel?
SS : Relativamente bem, não foi um best-seller como os outros dois sobre a invenção do povo judeu e a invenção da terra de Israel, mas foi bem. A Universidade de Tel Aviv fez um grande debate sobre o livro. E o subtítulo era claro: “Como deixei de ser judeu, aos olhos dos israelenses”. Isso porque não aceito a legitimação etnocrática e racial desse Estado.

CC: Sua posição tem consequências políticas ou práticas?
SS : Eu sou circuncidado, não posso mudar isso. Nunca me senti judeu, era israelense de origem judaica. Mas não conseguia compreender isso por causa do antissemitismo no mundo. Hoje, acho que o mundo ocidental é mil vezes menos antissemita que antes. Ora, o mundo ocidental apoia um Estado etnocrático no Oriente Médio e eu quero que isso mude, que o mundo possa apoiar duas repúblicas, uma palestina e uma israelense, para fazer um acordo histórico com o povo que empurraram para o Oriente Médio.

CC: Já que se fala de circuncisão, o que o senhor pensa de se mutilar o corpo de uma criança com argumentos religiosos?
SS: Não sou contra a circuncisão com uma condição: que seja decidida por uma pessoa adulta para ela mesma, a partir de 18 anos. Mas sou contra realizá-la em seres humanos que não decidiram nada.

Internacional

Entrevista - Shlomo Sand

“Não aceito a legitimação racial do Estado de Israel”
O escritor israelense Shlomo Sand faz duras críticas a seu país e explica os conceitos que baseiam o livro "Como deixei de ser judeu"

 por Leneide Duarte-Plon — publicado 28/11/2014 05:27.

  Shlomo Sand

 Para Shlomo Sand, ser judeu hoje é integrar um "clube exclusivo", situação que o incomoda

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De Paris
Historiador e professor da Universidade de Tel Aviv, o escritor Shlomo Sand se define como um "judeu laico e ateu". Mas isso é possível? Por julgar que não, ele escreveu o livro Comment j’ai cessé d’être juif (Como deixei de ser judeu), publicado este ano em francês. No livro, que será lançado em português pela editora Benvirá, Sand escreve que tem consciência "de viver numa das sociedades mais racistas do mundo ocidental, na qual o racismo está presente nas leis, nas escolas, na mídia".
Segundo Shlomo Sand, o barril de pólvora prestes a explodir não vai conhecer a paz "enquanto não houver uma verdadeira pressão internacional sobre o Estado de Israel". "Para salvar Israel de si mesmo, o mundo deve acordar, sobretudo os Estados Unidos", diz.
Nesta entrevista, feita por telefone na França, onde se encontrava de passagem, ele diz que Hitler venceu a guerra ideológica pois, exatamente como os nazistas, "os sionistas consideram a identidade judaica como algo à parte, uma etnia e mesmo às vezes com bases raciais". Diz que algo tribal, racista venceu "porque os sionistas definem o Estado israelense não como o Estado de todos os cidadãos, mas dos cidadãos judeus". E informa: "Na Universidade de Tel Aviv há laboratórios que pesquisam desesperadamente o DNA judeu para provar que os judeus são um povo-raça", diz.
CartaCapital: Depois de escrever dois best-sellers sobre a invenção do "povo judeu" e da "terra de Israel", o senhor lançou este ano na França Comment j’ai cessé d’être juif. É possível deixar de ser judeu e por que o senhor não quer continuar a sê-lo?
Shlomo Sand: Aos olhos do antissemita não se deixa de ser judeu porque para ele isso é uma coisa racial, da essência da pessoa e não se pode deixar de pertencer a uma raça. Aos olhos do sionista é a mesma coisa. Recebi muitas cartas de sionistas que me diziam ser impossível, já que a visão deles é essencialista, ser judeu está no sangue. Penso que ser judeu na História é ser um crente muito, muito especial. O Judaísmo é a mãe dos monoteísmos, é uma religião muito importante, que deu origem a dois outros monoteísmos, o cristianismo e o islã. Mas como venho da segunda geração de ateus laicos me perguntei sempre "Por que sou judeu?. "Sou realmente judeu?". Escrevi o livro por duas razões.
CCC: Quais?

SS: Vivo num Estado que se define como "Estado Judaico". Ora, um quarto da população não é considerada judia e não pode tornar-se judia, senão pela conversão. Como sou um cidadão de um Estado que se define como judaico, sou um cidadão privilegiado porque o Estado não pertence aos seus cidadãos árabes nem cristãos. Como minhas origens são judaicas, isto é, sou descendente de pessoas que sofreram muito tempo essa política segregacionista que perseguiu os judeus, não quero ser judeu num Estado Judaico. Se esse Estado fosse de todos os cidadãos israelenses, não teria escrito esse livro.
A segunda razão é que penso que a identidade judaica laica é vazia, não tem um peso cultural, linguístico, etc. Os judeus laicos no mundo não falam a mesma língua, não comem os mesmos alimentos, não ouvem as mesmas músicas. Woody Allen não sabe o que é a música israelense de hoje, não sabe o que se come em Israel, não pode falar minha língua. Queria compreender o que é um judeu laico excluindo a memória. Sempre me defini como judeu dizendo que enquanto houvesse um antissemita no mundo eu seria judeu. Mas parei de me definir assim. Pode-se virar cristão, virar judeu religioso, virar socialista, brasileiro, ou francês, mas como virar judeu laico? Existe uma forma de se virar judeu laico sem ter nascido de mãe judia? No momento em que compreendi que faço parte de um clube exclusivo que não pode receber novos membros, decidi que não quero pertencer a um clube exclusivo em pleno século XXI.

CC: Em Israel, a menção "judeu" vem inscrita na carteira de identidade. O senhor escreve: "Em Israel e no estrangeiro, os sionistas do início do século XXI rejeitam o princípio da nacionalidade israelense para somente admitir uma nacionalidade, a judia". Um pouco depois: “Cada vez mais, tenho a impressão de que sob certos aspectos Hitler saiu vitorioso da Segunda Guerra Mundial". Pode explicar?

SS: Hitler ganhou a guerra ideológica, de certo modo. Ele tinha decidido que os alemães judeus não eram alemães, que eram uma raça à parte, uma etnia à parte, um povo à parte. O alemão judeu não estava de acordo com isso, sentia-se alemão, era um cidadão alemão, tinha uma nacionalidade alemã. E por que Hitler ganhou ideologicamente? Porque os sionistas consideram a identidade judaica como algo à parte, uma etnia e mesmo às vezes com bases raciais. Na universidade de Tel Aviv, onde trabalho, há laboratórios que pesquisam desesperadamente o DNA judeu para provar que os judeus são um povo-raça que partiu há dois mil anos da terra que se chama Israel, passando por Moscou e fazendo outros percursos até retornar à Palestina. Digo que algo tribal, racista, ganhou porque os sionistas definem o Estado israelense não como o Estado de seus cidadãos mas dos cidadãos judeus. Não discuto a existência de Israel, discuto a identidade etnocêntrica da política israelense.

CC: O senhor se diz laico e ateu. Como é possível isso num país que se define como um Estado Judaico, construído a partir da história de um povo que crê numa religião revelada e no destino de povo eleito de Deus?

SS: Não é possível e por isso me sinto mal em Israel. Queria mudar toda a cultura política israelense. Queria “dessionizar” o Estado de Israel. Digo no meu livro que o Estado de Israel não consegue definir quem é judeu por critérios laicos. Eles têm dois modos de definir quem é judeu: pela biologia, pela genética, ou pela religião. Pelos critérios religiosos, um judeu é alguém que se converteu à fé judaica ou quem nasceu de mãe judia. E o Estado pertence somente a essas pessoas. Assim sendo, um judeu brasileiro que mora em São Paulo pode ser cidadão de Israel. Mas Israel não é o Estado de meus alunos árabes que trabalham comigo na Universidade de Tel Aviv. Se Israel vai continuar a manter uma identidade etnocêntrica semi-religiosa com uma visão muito profunda das raças e com uma visão profunda de povo escolhido, penso que não preciso ser profeta para dizer que isso vai destruir Israel. Não há futuro para um Estado assim.

CC: O senhor considera que Israel, fundado dentro dos princípios da religião que reconhece um “povo judeu” e o vê como “povo eleito” de Deus, é um Estado teocrático?
SS: Não, porque não é a verdadeira fé em Deus que está no centro da política. São os nacionalistas que se utilizam da religião. O princípio do Estado é etno-religioso mas não é a religião que está no centro. As elites laicas têm necessidade da religião para se afirmar e por isso Israel se torna cada vez mais um Estado etnocrático.

CC: Os judeus franceses são intransigentes com os negacionistas que negam a existência dos fornos crematórios e o genocídio judeu. Em Israel, nega-se a Nakba, a expulsão e o massacre dos palestinos pelos sionistas, em 1948. Esses dois negacionismos têm pontos em comum?

SS: Não, o primeiro era um projeto de eliminação do outro e no projeto colonialista judaico o objetivo era de empurrar o outro para longe. Em 1948, houve massacres mas não eram uma característica da colonização sionista. O projeto do nazismo era eliminar o outro, não apenas expulsá-lo. Negar o sofrimento dos judeus durante a Segunda Guerra mundial na Europa é condenável mas negar a Nakba é também condenável, mesmo se são realidades diferentes. Meu dever hoje é lutar contra o esquecimento da Nakba. Com esse ocultamento, não se pode construir a paz.

CC: O Estado da Palestina, reconhecido por 135 países entre os 193 que fazem parte da ONU, é ainda viável? Por que Israel não quer um Estado palestino nas fronteiras estabelecidas pela ONU em 29 de novembro de 1947?

SS: O Estado de Israel é reconhecido com suas fronteiras de antes da guerra de 1967. Eu também reconheço a existência desse Estado com as fronteiras de 1967. Se um Estado palestino ao lado de Israel é ainda viável, não sei. Mas não vejo outra solução. Moralmente, como não sou nacionalista, desejaria a solução de um Estado para as duas identidades. Mas como não creio que isso é realizável, defendo a solução de dois Estados com as fronteiras de 1967. Mas não creio que em Israel se possa realizar isso porque a inércia no sionismo é a colonização. O sionismo nunca parou a colonização do fim do século XIX até hoje. Mesmo entre 1948 e 1967 havia uma colonização sionista em Israel. Tomaram as terras de palestinos israelenses e deram aos judeus israelenses. Por que Israel não aceita um Estado palestino? Porque os sionistas pensam que o centro desse Estado é o centro da antiga "pátria dos judeus", Hebron e Jericó. Esse é o centro do imaginário bíblico que teria sido a pátria dos judeus. Para muitos, sobretudo para as elites políticas e intelectuais, renunciar a isso é muito difícil. Enquanto não houver uma verdadeira pressão internacional sobre o Estado de Israel, não haverá paz. Para salvar Israel de si mesmo o mundo deve acordar, sobretudo os Estados Unidos. Eles podem pedir que Israel respeite o direito dos palestinos, saia dos territórios ocupados e favoreça a criação do Estado palestino. Em Israel, não vejo um movimento político capaz de realizar esse projeto.

CC: O senhor pensa que o movimento pelo boicote (BDS) a Israel, criado por Noam Chomsky, Desmond Tutu, Stéphane Hessel, Ken Loach, entre outros, pode ser eficaz para lutar contra a segregação e o apartheid dos palestinos em Israel?

SS: Aceito hoje em dia qualquer pressão sobre Israel, menos o terrorismo.

CC: O escritor Amos Oz denunciou este ano os “neonazistas hebreus”, como ele chama os extremistas judeus que realizaram uma onda de atentados racistas contra os cristãos e os muçulmanos. O que o senhor pensa da expressão?

SS : Como nunca comparei o sionismo ao nazismo, não comparo os extremistas sionistas aos nazistas porque não é comparável e isso é importante. Enquanto não existe um projeto de genocídio, nada pode ser comparado ao nazismo. Os extremistas racistas me enojam, mas na história não somente os nazistas foram racistas. Tenho certeza de que no Brasil há racistas, sempre houve racistas que não queriam viver com os negros ou com os índios e não são comparáveis aos nazistas. Não se pode comparar o extremista sionista execrável aos nazistas.

CC: Os israelenses gostam de escrever que Israel é a única democracia do Oriente Médio. O que o senhor pensa disso? O senhor escreve que gostaria de "tornar compatíveis as leis constitucionais de Israel com os princípios democráticos".

SS: Existe um jogo liberal em Israel, por isso o definiria não como uma democracia mas como uma etnocracia liberal. Israel não poderia nem mesmo adotar os princípios da monarquia britânica, nem os da democracia brasileira porque não há igualdade de todos os seus cidadãos. Não acredito que existam democracias perfeitas. Mas há Estados mais democráticos que outros. A democracia não é somente uma certa liberdade de expressão, liberdade dos partidos políticos. Antes de tudo, uma democracia é um Estado de todos os seus cidadãos. Um Estado democrático não pode pertencer a uma parte de seus cidadãos. E como Israel se define como um Estado judaico e não como um Estado israelense, não pode ser democrático. E como o poder israelense procura o bem dos judeus e não o dos israelenses, ele não pode ser considerado democrático. Um quarto da população não é parte integrante desse Estado. O Estado deve ser um lugar de identificação, deve servir a todos os cidadãos. Por outro lado, de forma relativa, Israel é um país liberal. O fato que eu possa ser professor da Universidade de Tel Aviv com minhas ideias mostra que o Estado é pluralista e liberal. Não podem me demitir.

CC: Como seu livro foi recebido em Israel?
SS : Relativamente bem, não foi um best-seller como os outros dois sobre a invenção do povo judeu e a invenção da terra de Israel, mas foi bem. A Universidade de Tel Aviv fez um grande debate sobre o livro. E o subtítulo era claro: “Como deixei de ser judeu, aos olhos dos israelenses”. Isso porque não aceito a legitimação etnocrática e racial desse Estado.

CC: Sua posição tem consequências políticas ou práticas?

SS : Eu sou circuncidado, não posso mudar isso. Nunca me senti judeu, era israelense de origem judaica. Mas não conseguia compreender isso por causa do antissemitismo no mundo. Hoje, acho que o mundo ocidental é mil vezes menos antissemita que antes. Ora, o mundo ocidental apoia um Estado etnocrático no Oriente Médio e eu quero que isso mude, que o mundo possa apoiar duas repúblicas, uma palestina e uma israelense, para fazer um acordo histórico com o povo que empurraram para o Oriente Médio.

CC: Já que se fala de circuncisão, o que o senhor pensa de se mutilar o corpo de uma criança com argumentos religiosos?

SS: Não sou contra a circuncisão com uma condição: que seja decidida por uma pessoa adulta para ela mesma, a partir de 18 anos. Mas sou contra realizá-la em seres humanos que não decidiram nada.

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