sexta-feira, 12 de julho de 2019

Lições espirituais do episódio do Bezerro de Ouro

Lições espirituais do episódio do Bezerro de Ouro





O jejum do 17º dia do mês hebraico de Tamuz é o início de um período de três semanas de luto pela destruição de Jerusalém e a queda dos dois Templos Sagrados. Lembra cinco eventos trágicos ocorridos nessa data. O primeiro deles foi o fato de Moshé ter quebrado as Tábuas dos Dez Mandamentos, quando, ao descer do Monte Sinai, viu o Povo Judeu reverenciar o Bezerro de Ouro.

Edição 92 - Julho de 2016

O episódio do Bezerro de Ouro é uma das passagens mais desconcertantes da Torá. Como foi possível que apenas 40 dias após a Revelação Divina no Sinai, o Povo Judeu escolhesse um bezerro de ouro – um objeto inanimado – para tomar o lugar de D’us?

Nossos Sábios ofereceram diferentes explicações.
Rashi, comentarista clássico da Torá, com base no Midrash, escreve que todo o incidente foi instigado pelos egípcios que se juntaram aos judeus por ocasião do Êxodo.
Os egípcios eram idólatras que adoravam animais; portanto, não surpreende que tenham levado os judeus a produzir e adorar o bezerro de ouro. O pecado dos judeus foi terem-se deixado influenciar pelos egípcios. Segundo o Talmud, o episódio do Bezerro de Ouro é inexplicável; foi um produto da Divina Providência. Aconteceu para nos ensinar que até mesmo a geração conduzida por Moshé, que recebeu a Torá e mereceu a Revelação Divina no Sinai, era falível. Eles erraram, ensina o Talmud, para que nenhum judeu mais se sinta abatido por seus pecados. Pois, se D’us perdoou o pecado do Bezerro de Ouro, Ele certamente concederá expiação por qualquer pecado que qualquer um de nós venha a cometer contra Ele.

Rabi Moshe ben Nachman, Nachmânides, oferece outra explicação para o episódio, dizendo que o Bezerro de Ouro não visava a substituir D’us, mas Moshé. Sua explicação se origina da simples leitura do versículo: “Faze-nos deuses que irão adiante de nós, porque a este Moshé, o homem que nos fez subir da terra do Egito – não sabemos o que lhe aconteceu” (Êxodo 32:23). Lembremo-nos que imediatamente após a Revelação no Sinai – quando D’us Se revelou explicitamente a todo o Povo Judeu e proclamou os Dez Mandamentos – Moshé subiu ao Monte Sinai. E lá permaneceu durante 40 dias e 40 noites, estudando Torá diretamente com o Próprio D’us. Em sua ausência - e apenas por causa de sua ausência – o Povo Judeu construiu o Bezerro de Ouro. Isso é evidente, pois quando ele retorna do Monte e destrói essa estátua, o povo não protesta. Se os judeus tivessem realmente sentido que Moshé destruía seu deus, eles teriam intercedido para evitá-lo. Ou, ao menos, teriam protestado vigorosamente. E não o fizeram. Quando Moshé retornou, eles já não precisavam do Bezerro de Ouro e não lhes importou que ele o tivesse destruído.

A explicação de Nachmânides é particularmente lúcida. Revela que o Povo Judeu fez o Bezerro de Ouro porque sentia a necessidade de algo físico com que se relacionar a D’us. Moshé, um ser humano, criatura física, servia a esse propósito. Quando ele se ausentou por 40 dias e o Povo acreditava que ele tivesse morrido no Monte Sinai, eles decidiram encontram um substituto para ele.

Pode-se compreender por que o povo buscava algo físico para substituir Moshé. Nós, seres humanos, vivemos em um mundo material. Até o mais espiritual dentre nós habita este mundo físico e tem necessidades físicas. Todos os seres humanos têm uma necessidade inata por algo tangível. Funcionamos guiados por nossos sentidos físicos. É muito difícil relacionar-se com algo que não se pode ver, ouvir, tocar ou com quem falar. É, portanto, mais fácil relacionar-se com seres físicos do que com D’us. Não podemos ver D’us. Isso está muito claro e não apenas porque D’us é despido de tudo o que é físico, mas também porque, como o afirma a Torá, um ser humano não pode ver D’us e continuar vivo. É verdade que o Povo Judeu testemunhou a Revelação Divina no Sinai, mas a experiência foi tão devastadora que eles pediram a Moshé que dali em diante D’us apenas Se revelasse a ele, e que ele transmitisse Suas mensagens a eles. Nossos Sábios ensinam que quando D’us proclamou os Dez Mandamentos, a alma dos judeus deixou seus corpos e Ele teve que ressuscitá-los.
Por isso a experiência foi tão devastadora para eles.

Ademais, D’us não trava diálogos conosco e, à exceção de Moshé, mesmo os profetas não tinham acesso livre a Ele. Certamente, há muitas maneiras de D’us se comunicar com cada um de nós. Os místicos ensinam que tudo que ocorre na vida de uma pessoa é D’us se comunicando com essa pessoa. D’us está sempre falando conosco, mas nem sempre Sua mensagem é clara. D’us também fala conosco por meio da Torá, mas tantos de nós interpretamos errado Suas palavras. A vida é cheia de perguntas e precisamos de respostas claras; oramos a D’us e sabemos que Ele nos ouve, mas a oração é um monólogo. É muito raro D’us fornecer uma resposta imediata a nossas preces ou uma resposta a uma pergunta nossa. Se pudéssemos nos comunicar com D’us como fez Moshé – se pudéssemos falar com Ele “olho no olho, como um homem que fala com seu amigo” – tudo seria bem simples. A vida seria bem mais fácil para todos nós. Mas não ouvimos a voz de D’us, pelo menos não claramente. Somos instruídos a “Atrás do Eterno, vosso D’us, andareis” (Deuteronômio 13:5), e nos voltamos à Torá e aos ensinamentos de nossos Sábios em busca disso, mas o que encontramos são mandamentos e instruções gerais. Consequentemente, as pessoas estão sempre buscando algo ou alguém para lhes dar respostas mais claras e mais específicas a suas perguntas e problemas. É por isso que tantos judeus correm aos rabinos e aos místicos que possuem Ruach HaKodesh – o “Espírito Sagrado”, uma forma mais sutil de profecia. É por isso que os judeus no deserto eram tão dependentes de Moshé. Ele era o mais poderoso de todos os profetas – ele podia falar com D’us a qualquer hora e as mensagens que D’Ele recebia eram claríssimas. Se alguém precisasse perguntar algo a D’us, bastava dirigir-se a Moshé.

O Zohar, obra fundamental da Cabalá, ensina que a Shechiná – a Presença Divina no mundo – falava pela garganta de Moshé (Raaya Mehemna, Pinchas 232a). Moshé não apenas era profeta de D’us, mas o meio físico por meio do qual D’us se comunicava claramente com o Povo Judeu. No Monte Sinai, D’us deu as Tábuas nas quais foram gravados os Dez Mandamentos, mas foi Moshé quem ensinou toda a Torá – todos os 613 mandamentos e suas ramificações – durante a jornada de 40 anos pelo deserto. Ele foi o líder e o mestre do povo, e o porta voz de D’us. Quando Moshé ascendeu ao Monte Sinai, o Povo Judeu sentiu-se como uma criança abandonada por seus pais. Temiam que nem mesmo o irmão mais velho de Moshé, Aaron, um grande profeta por mérito próprio, tivesse condições de substituí-lo. Pois, de fato, nunca houve nem haverá tão grande profeta como Moshé, inigualável e insubstituível. Alguns comentaristas da Torá inferem que o povo optou pelo bezerro de ouro em vez de Aaron, para substituir Moshé, porque um objeto, diferentemente de um ser humano, não morre nem desaparece. Um objeto não sobe uma montanha, deixando seu povo a esperar, sem saber se ele algum dia retornaria.

Assim sendo, o pecado do Bezerro de Ouro não é tão simples como muitos o julgam. O Povo Judeu não criou uma estátua de um bezerro por ter optado seguir uma estátua em vez de seguir o Todo Poderoso, que havia feito tantos milagres para eles, libertando-os do Egito, revelando-se diante deles no Monte Sinai e proclamando os Dez Mandamentos. Ao contrário, na ausência de Moshé, eles buscaram algum tipo de substituto para continuarem conectados a D’us. O pecado do Bezerro de Ouro foi consequência direta do fato do povo não ter acreditado que poderiam se relacionar diretamente a D’us. Acreditavam ser necessário um intermediário – algo tangível para poder se relacionar com D’us – Aquele que é totalmente despido de fisicalidade.

Assim sendo, o pecado do Bezerro de Ouro não foi um ato de clara rebelião contra D’us. Tampouco foi uma negação a D’us. Não foi um ato de adultério espiritual, no qual o Povo Judeu tivesse traído D’us por uma estátua de ouro. Foi um erro deplorável oriundo de conceitos errados sobre o relacionamento errôneo entre o homem físico e D’us Infinito.

Por que, então, o pecado do Bezerro de Ouro é considerado um incidente tão notório na História Judaica? Por que Moshé teve que orar em prol de seu povo, durante 120 dias, para evitar que D’us os aniquilasse? Para responder a essas perguntas, é preciso examinar não apenas o que o Bezerro de Ouro estava destinado a ser, mas o que realmente acabou se tornando.

O Bezerro de Ouro e a Serpente de Cobre

O episódio do Bezerro de Ouro se iniciou com o pedido do povo para celebrar “uma Festa para o Eterno (que) será amanhã!” (Êxodo 32:5). Na ocasião dessa festa, fizeram um objeto religioso simbólico. O Bezerro de Ouro tinha a intenção de ser simbólico, mas no final não foi o que aconteceu. Aos poucos, foi-se tornando pura idolatria. A princípio, seu propósito era ser um tipo de substituto para Moshé – uma forma de comunicação com D’us, mas se tornou um objeto de adoração. A “Festa para o Eterno”, destinada a ser uma cerimônia religiosa, acabou sendo uma celebração descontrolada e uma orgia. De repente, o Bezerro de Ouro deixou de ser substituto para Moshé – uma ideia muito tola, no entanto relativamente inofensiva, mas um objeto de idolatria, que o povo imediatamente se pôs a adorar.

Maimônides ensina que é exatamente assim que a idolatria se desenvolveu. A seu ver, a humanidade a princípio acreditava na unicidade de D’us, mas, a certo ponto, o homem começou a se relacionar com os “intermediários” mais do que com o próprio D’us, até que finalmente o ponto central foi totalmente esquecido e o povo começou a se concentrar exclusivamente nos “intermediários” (Leis da Idolatria 1:1-2).

Vale a pena contrastar o pecado do Bezerro de Ouro com outro episódio no deserto que também envolveu a confecção de um objeto com a forma de um animal – a Serpente de Cobre. No 40º ano de sua permanência no deserto, os judeus reclamaram sobre o Maná, o Pão Celestial, que era a sua dieta no deserto. D’us viu isso como uma profunda ingratidão e mandou serpentes para atacar os reclamantes. Moshé orou em seu nome e D’us o instruiu a criar uma serpente de cobre e a colocar no alto de um poste. “Todo aquele que for picado, olhando para ela, viverá” (Números 21:5-9).

Como no episódio do Bezerro de Ouro, foi feita uma estátua de uma criatura viva. A Serpente de Cobre visava a servir a um propósito religioso: fazer ver ao Povo Judeu que D’us era a fonte tanto de suas aflições quanto de sua cura. Contudo, ao contrário do Bezerro de Ouro, a confecção da Serpente de Cobre não foi uma ideia do povo, nem de Moshé, mas um mandamento de D’us. E aqui reside uma das diferenças fundamentais entre o Bezerro de Ouro e a Serpente de Cobre – entre a idolatria e o mandamento Divino: sua origem. Quando os símbolos religiosos ou ritos são criados pelo homem, podem facilmente levar a graves erros rituais e à idolatria. Mas, por outro lado, quando se originam do Divino, servem para levar o homem mais próximo a D’us. O Bezerro de Ouro levou à morte e à destruição – à quase aniquilação do Povo Judeu – ao passo que a Serpente de Cobre salvou a vida daqueles que tinham sido mordidos pelas serpentes.

No entanto, mesmo a Serpente de Cobre, que era um produto de uma ordem de D’us, representou um risco - a possibilidade de que o Povo Judeu a idolatrasse. A origem da idolatria é a crença em qualquer poder que não depende de D’us. Como pergunta o Talmud, no Tratado Rosh Hashaná: “Uma serpente mata ou mantém a vida?”. O Talmud responde que, na realidade, a Serpente de Cobre não fez nenhum dos dois. Apenas fez lembrar ao Povo Judeu que erguesse seu olhar a D’us e orasse para que Ele o curasse.

Isso nos leva à pergunta: será que essa Serpente era realmente necessária? Não poderiam orar a D’us sem a necessidade de um objeto físico? A resposta, novamente, é que aparentemente é muito difícil as pessoas voltarem seus pensamentos a D’us na ausência de algo tangível. Vale ressaltar que a Serpente de Cobre erguida por Moshé acabou sendo idolatrada, muitos anos após sua construção, por certos judeus, que erroneamente julgaram que ela possuía poderes curativos. Isso levou o Rei Hezekiá de Judá (6o século AEC) a destruir essa serpente (V. Reis II, 18:4).

No momento em que o Povo Judeu começou a acreditar que tinha sido a Serpente de Cobre, e não D’us, quem os curara, foi necessário destruí-la. Seu propósito foi servir como foco para que o povo voltasse seus pensamentos ao Eterno: foi por isso que D’us ordenou que fosse colocada no alto de um poste. Quando, em vez de usar um ponto tangível como meio de olhar para os Céus, o povo começou a atribuir poderes independentes à Serpente de Cobre, esta se tornou uma fonte potencial de idolatria e derrocada espiritual, ainda que tivesse sido construída atendendo a uma ordem Divina.

Os incidentes do Bezerro de Ouro e da Serpente de Cobre oferecem muitas lições. Uma particularmente relevante é que é D’us – e não o homem – quem decide como Ele deve ser adorado. O incidente do Bezerro não foi apenas um episódio infeliz na história de nosso povo; é uma lição também para os nossos dias. Precisamos seguir D’us e nos relacionar diretamente com Ele ainda que seja difícil fazê-lo - ainda que não haja um Moshé para nos dizer exatamente o que fazer. A última coisa que devemos fazer é criar novos símbolos ou mandamentos religiosos – adulterar a Torá – ainda que o façamos com a melhor das intenções, visando a realizar uma “Festa para o Eterno”. Não cabe ao homem decidir o que agrada a D’us. O homem finito jamais pode alcançar o Infinito. Somente D’us Infinito pode vencer a distância entre Ele Próprio e Suas Criaturas. Portanto, não construímos “bezerros de ouro” – e tudo o que estes representam e simbolizam. Pelo contrário, fazemos “serpentes de cobre”: seguimos as leis e mandamentos de D’us. Mas precisamos sempre estar cientes de que mesmo essas “serpentes de cobre” podem ser uma fonte de idolatria e graves erros espirituais se nos esquecermos de que são apenas o meio para se chegar a um fim. Como ensinou certa vez o grande Mestre Chassídico, o Rabi Menachem Mendel de Kotsk: “Às vezes uma Mitzvá (um mandamento religioso) se torna uma idolatria”.

Das alturas mais elevadas aos abismos mais profundos

Não foram apenas a ausência de Moshé ou os erros teológicos do Povo Judeu e suas concepções erradas que levaram ao episódio do Bezerro de Ouro. Ironicamente, foi a extraordinária experiência espiritual no Monte Sinai o que lhes fez cometer esse erro crasso.

A Revelação Divina no Monte Sinai foi uma vivência única: por um momento, o Povo Judeu se elevou a tal altura espiritual que cada um dos judeus se tornou um profeta – e todos eles ouviram a comunicação direta de D’us. Imediatamente após, tudo desapareceu. Até mesmo Moshé, que subiu ao Monte Sinai, tinha desaparecido. Para ele, a Revelação Divina e os Dez Mandamentos foram seguidos, de imediato, por 40 dias e 40 noites de estudo ininterrupto da Torá; ele aprendeu a Torá diretamente com o Próprio D’us. Por outro lado, para o Povo Judeu, os Dez Mandamentos foram seguidos por um vácuo. Quando esse vácuo não foi preenchido com santidade, foi preenchido exatamente com o oposto: deterioração e profanação espiritual.

Não devemos ficar tão perplexos com o fato de que o pecado do Bezerro de Ouro tenha ocorrido apenas 40 dias após a Revelação no Sinai. Em retrospecto, foi uma reação natural à entrega da Torá. É o que ocorre, geralmente, quando alguém alcança a exaltação espiritual e depois vivencia um brusco desapontamento, quando tudo desaparece, subitamente. Muitos judeus que iniciam seu progresso espiritual no judaísmo geralmente vivenciam esse problema. Eles atingem certo nível de exaltação, como uma chama ardente: oram com grande intensidade e cumprem os mandamentos com tremenda paixão. Quando essa chama se extingue, algo inevitável, o vazio que permanece pode ser devastador. O vácuo – a sensação de vazio que se segue a tanta paixão – pode levar não apenas a uma regressão, mas até mesmo ao total abandono daquela jornada espiritual. Os pontos exageradamente elevados e edificantes na vida espiritual da pessoa podem ser muito perigosos, pois apresentam o perigo de uma séria queda – ao ponto que um judeu pode cair a um nível ainda mais baixo daquele em que se encontrava antes de iniciar sua ascensão espiritual. A maneira adequada de lidar com esse perigo é nunca tardar, mas iniciar imediatamente um processo que permitirá que a pessoa mantenha sua elevação espiritual.

Um exemplo é Yom Kipur – o dia em que D’us finalmente perdoou o Povo Judeu pelo pecado do Bezerro de Ouro. O Dia do Perdão deve ser o dia em que os judeus atingem grandes alturas espirituais. Nesse dia, devemos nos comportar como o fazem os anjos: não comemos, não bebemos e passamos o dia em oração. Tudo acerca de Yom Kipur transborda de energia espiritual. Na manhã desse dia, a passagem da Torá que é lida descreve o serviço que era realizado nesse dia pelo Cohen Gadol (o Sumo Sacerdote) no Templo Sagrado, em Jerusalém. Yom Kipur era o único dia em que um ser humano – o Sumo Sacerdote – podia entrar na câmara mais sagrada do Templo – o Kodesh HaKodashim – o Santo Santíssimo. A leitura da Torá na manhã de Yom Kipur serve para destacar a singularidade espiritual da data. E, contudo, estranhamente, durante a Minchá (o serviço vespertino), a passagem da Torá que é lida versa sobre a antítese da santidade: lemos o capítulo 18 do Livro de Levítico, que detalha as proibições contra o incesto e outros pecados sexuais.

Esse trecho da Torá da Minchá do dia de Kipur parece totalmente deslocado. Esse é o dia em que nos concentramos nas mais elevadas alturas espirituais a que um judeu pode ascender. Em Yom Kipur, cada um de nós é convocado a agir como se ele fosse o Sumo Sacerdote servindo no Templo Sagrado de Jerusalém. Como podem ser relevantes a tal data o incesto e outros comportamentos sexuais imorais? Em outras palavras, por que lemos sobre tais assuntos vis, justo no dia que personifica o máximo da espiritualidade? Nós o fazemos por uma boa razão: para nos fazer lembrar de que uma grande elevação espiritual pode ser seguida de um terrível colapso espiritual.

A leitura da Torá durante a Minchá de Yom Kipur nos transmite uma importante mensagem: é no momento de sua maior elevação espiritual que você é mais vulnerável. A Torá nos alerta: tenha cuidado, pois é exatamente quando você pensa que está no topo do mundo que você pode despencar às mais escuras profundezas.

Portanto, é importante que uma grande experiência espiritual não seja seguida por um vácuo. Uma conquista espiritual deve ser seguida por outra. Quando realizamos um ato de bondade, devemos esforçar-nos para realizar outro ainda maior. Quando terminamos de estudar um Tratado do Talmud, devemos iniciar outro de imediato, no mesmo dia. Pois é justamente nos momentos de ascensão que devemos envolver-nos em atividades que fomentem o crescimento espiritual, ainda que com o único propósito de evitar a criação de uma brecha para a entrada de uma deterioração espiritual.

O período entre a entrega da Torá e o retorno de Moshé durou apenas 40 dias, mas esse tempo foi o suficiente para que o Povo Judeu cometesse um erro deplorável. Mas, imaginemos que antes de ascender ao Monte Sinai, Moshé lhes tivesse ordenado começar a construir o Mishkan, o Tabernáculo. Se o tivesse feito, o povo teria estado ocupado construindo a Morada de D’us e não teria tido tempo nem interesse em erguer um bezerro de ouro. Ademais, todo o ouro que o povo entregou para fazer a estátua teria sido usado para o Tabernáculo, ou seja, para um propósito sagrado. Sua derrocada foi porque, logo após a Revelação Divina no Sinai, eles retomaram seu curso normal de vida, e essa transição – a queda de grandes Alturas espirituais para o cotidiano – levou-os a uma queda ainda maior: a construção e a adoração de um Bezerro de Ouro.

Épocas de transição espiritual são épocas de verdadeira provação – épocas de verdadeiro perigo espiritual. Portanto só há uma maneira de garantir que não cairemos: agir e seguir adiante. Como ensinou o grande Mestre Chassídico, Rabi Aharon de Karlin: “Quem não se eleva, degrada-se”.

A vida espiritual de um judeu deve ser um esforço constante para atingir alturas espirituais sempre mais elevadas. Não há lugar para a inércia, pois resultaria em derrocada espiritual. Portanto, ensina o Talmud que “os Tzadikim (os justos) não descansam – nem neste mundo nem no mundo vindouro”. Um Tzadik está sempre se alçando a alturas cada vez mais elevadas. E, como está escrito: “V’Ameich Kulam Tzadikim” - “E teu povo, serão todos Tzadikim” (Isaías 60:21), cabe a cada judeu nunca descansar, pelo contrário, “ir de força em força” (Salmos 84:8), em todos os aspectos, sejam eles materiais ou espirituais.

Bibliografia
Talks on the Parasha - Rabi Adin (Even Israel) Steinsaltz – Koren Publishers, Jerusalem
Why the Israelites Made a Calf – Rabi Lazer Gurkow

sábado, 29 de junho de 2019

O QUE É HALACHA? COMO FUNCIONA? E QUAL É A SUA ESTRUTURA?

O QUE É HALACHA? COMO FUNCIONA? E QUAL É A SUA ESTRUTURA?
27 DE JUNHO DE 2019




A primeira vez que li Les Misérables , o que mais me surpreendeu sobre o livro foram as diferentes maneiras pelas quais ele é perguntado: o que é justiça? E se as leis que os homens fazem são realmente justas ou não. Parece que nas sociedades que construímos havia uma dissonância muito grande entre as coisas que consideramos justas e o modo como nosso próprio sistema de justiça se comporta.
No livro um homem sofre perseguição da polícia ao longo dos séculos por um crime que não cometeu, uma mulher é empurradas para a pobreza por vingança de um vizinho fofoqueiro, uma criança morre nas mãos de um soldado e aqueles quem pensam que eles são "defensores do povo" são deixados sozinhos quando cometem um vandalismo. Todos acreditam que agem com justiça e que é a venda.
No final da estrada, a justiça foge de suas mãos porque o sistema de valores que usam é errado ou incompleto.
No livro, a justiça está nas mãos de D'us porque os personagens são incapazes de agir como indivíduos justamente; ser mais justo em suas ações do que em seus julgamentos ou até perdoar. Eles falam de justiça na sociedade, impõem seus próprios valores aos que os rodeiam, mas internamente eles não mudam, eles não se superam, não olham e não entendem as razões daqueles que estão à sua frente.
Para o livro e a concepção judaica do mundo não há justiça sem misericórdia, e o homem vem a este mundo para julgar a si mesmo em vez de julgar os outros. Ser justo com o judaísmo (tzadik) é principalmente uma maneira de agir. Implica em todos os momentos fazer o que D'us pede de nós, isto é, agir em todos os momentos de acordo com os valores da Torá e dar o máximo potencial humano em termos de bondade, retidão e plenitude. Esse é o ideal que todo crente sincero tem; chegar a superar-se ao ponto que suas ações reflitam a glória divina em todos os momentos. Fazê-lo é um longo caminho de uma vida. A halachá, que em hebraico significa "o caminho da caminhada", nos ajuda a atravessá-la.
O QUE É HALACHA? O QUE SÃO MITZVOT?
Como vimos na série de artigos anteriores (Halacha I, II); a halachá é a lei judaica, foi construída ao longo dos milênios. Baseia-se principalmente na Torá Oral (cuja maior compilação é o Talmude) e na Torá Escrita.
O objetivo da halachá é nos ajudar a moldar nosso comportamento e atitude de acordo com o que a Torá nos pede. Como vimos em artigos anteriores, a Torá é o guia e a exigência que D'us dá ao homem é expressa em muitas formas, uma delas é através de ordens explícitas, como não matar, não roubar, santificar o Seu nome e respeitar os pais Essas ordens são o que chamamos mitzvot,
Os comandos que D'us dá ao homem.
Eles são encontrados tanto na Torá Oral quanto na Torá Escrita, embora geralmente seja a Torá Oral que nos diz as particularidades. Por exemplo, a Torá escrita nos diz: "você respeitará seu pai e sua mãe", a Torá Oral nos diz quando e como devemos fazê-lo, o que significa respeitar e até que ponto devemos respeitar os pais, o que acontece se um deles os pais têm uma doença mental? ou exige que a criança faça algo que seja prejudicial à sua pessoa ou à sua saúde, etc. Também através do estudo de ambos entendemos, o contexto em que o referido mandato foi dado ao homem, a forma em que foi dado e as razões pelas quais foi dado.No final, a halachá nos diz como se comportar ao ser congruente com a tradição que nos foi dada e preservada do Sinai. Mas em todos os momentos é uma responsabilidade individual, a pessoa decide se deve ou não ouvi-la, não pode ou não deve ser imposta pela força.
ESTRUTURA DA HALACHÁ
Quando se estuda a estrutura da Halacha, a primeira coisa a entender é que o homem está também envolvido nele . Mitzvot são dadas pelo sistema de interpretação divina e rabínica, dado por D'us a Moisés no Sinai. No entanto, não são uma série de estruturas feitas pelo homem para protegê -la e levá -la para a prática que, embora eles foram feitas com um sistema divino, um sistema de princípios, sua particularidade foi dada pelo homem.
Podemos entender isso da seguinte maneira: D'us deu uma lei e ao mesmo tempo deu a forma na qual esta lei deveria ser lida e interpretada. A interpretação é humana, a forma é divina.
FORMA DE MITZVOT E HALACHOT
Quando se fala de halachot, a primeira coisa que se pensa é como dar forma às mitsvot dadas por D'us. Por exemplo, na Torá Escrita nos é dito que devemos ser gratos antes de comer, mas não nos é dito como devemos agradecer; Dizem-nos que a tefilina deve ser usada entre os olhos, mas não nos é dito a que horas, a que altura e o que realmente são as tefilinas. Tudo isso é contado pela Torá Oral através da tradição .
Às vezes a tradição de como fazer a mitsvá particular vem do Sinai, isto é, do diálogo que Moisés teve com Deus; outros são deduzidos através de diferentes metodologias, como o Gemara, o Drash, etc; outras vezes foram elaboradas pelos rabinos ou sábios das gerações anteriores e às vezes é feito da maneira que o povo judeu adotou como costume. Finalmente estas são as fontes de qualquer pronunciamento haláchico, a Torá do Sinai (em sua forma oral ou escrita), a tradição rabínica ou o costume judaico. Dependendo de como sua origem vai mudar a forma como nos relacionamos com ela.
Por exemplo, a mitzvá de lembrar e santificar o sábado é dada por D'us ao povo, é mesmo um dos Dez Mandamentos. A oração "kiddush" fazemos com vinho que nós santificar o dia foi feito pelos rabinos, em seguida, cada vez que fazemos kiddush estão reunidos para toraica mitzva (a ordem dada por D'us a Moisés), para santificar o sábado, mas nós estamos fazendo isso da maneira como nossos ancestrais trabalharam. Por outro lado, a mitzvá de não misturar carne com leite é deduzida da Torá Oral (o texto escrito) com o sistema "drash" que também foi transmitido do Sinai; esse é um exemplo de uma mitzvah da Torá que foi deduzida da Torá e não dada diretamente por D'us a Moisés. Da mesma forma, seis, três ou horas que cada pessoa espera entre comer carne e comer leite são costumes que foram adotadas ao longo dos anos pelo povo judeu, ou seja, a Torá não comandos comer juntos carne e leite e, ao longo dos anos, foi definido em que ponto do tempo foi considerado que não estamos mais os comendo juntos. Quanto a exemplos de mitsvot que a forma foi dada por D'us a Moisés no Sinai, são as obras proibidas no Shabat e a maneira correta de matar um animal para consumir sua carne.
MITZVOT RABÍNICA, GUEZIROT E TACANOT
A divisão anterior que marcamos refere-se apenas ao modo particular de executar o mandato dado por D'us. Todos os exemplos que usamos são comandos do Torá, cuja forma foi definida de diferentes maneiras. Além disso, existem as que são chamados de "guezirot", "tacanot" e comandos ou ações que são delimitados pelos rabinos pré-talmúdicos (principalmente o Sinédrio), que foram feitas para proteger a Torah "mitzvá rabínica".
Na Torá Escrita, D'us ordena que a Assembléia dos Sábios e Moisés "protejam suas proteções" para criar estruturas que ajudem o povo de Israel a permanecer dentro da Torá e cumprir seus mandatos. Ao mesmo tempo, ele ordena aos "Filhos de Israel" que os escutem e não se separem nem para a direita nem para a esquerda dos mandatos que eles dão.
O respeito que o povo judeu tem dado a esses mandatos ao longo dos milênios é o que mantém a Torá viva até hoje. Há muitas mitzvot e guezirot rabínicas que, se elas não existissem, não seríamos capazes de cumprir plenamente a Torá.
Por exemplo, todos os berachot (bênçãos) e orações (com exceção do Shema) são mitzvot rabínicos. O que dizemos quando nos levantamos, comendo, vendo algo bonito e cumprindo uma mitsvá. Todos, sem exceção, foram elaborados pelos rabinos. Cada um tem sua razão particular para que tenha sido elaborado, mas em termos gerais o que ajuda a pessoa a fazer é agradecer a D'us pelas bênçãos diárias que ele dá à pessoa. Um tem a obrigação da Torá de agradecer a D'us, no entanto, se alguém não designar uma hora específica do dia para agradecer, é muito difícil realmente fazê-lo e realmente sentir a gratidão. Da mesma forma, se alguém tira das bênçãos que D'us lhe dá diariamente, sem sequer parar por um segundo, é muito difícil para ele perceber que está tirando deles.Os berachotes nos forçam a sentir sincera gratidão a Hashem. Essa é uma mitsvá rabínica positiva, uma ação que somos obrigados a fazer.
Uma "guezira" é uma "cerca" uma proibição que os rabinos fazem para ficar dentro do limite do que a Torá marca. Por exemplo, a Torá proíbe a mistura de carne e leite, refere-se a carne bovina e outros animais domésticos. Os rabinos proíbem a mistura de carne de aves e animais silvestres com leite. Existem inúmeras razões pelas quais eles fazem isso, mas isso é feito principalmente para que não se acostume a misturar carne animal com leite.Ao se acostumar com isso, você corre o risco de confundir carnes e comer uma que não é permitido comer com leite. Além disso, há razões cabalísticas pelas quais isso é feito e razões de musar (superação e controle de emoções) que nos mantêm dentro dos limites da Torá. Por exemplo, todo o crescimento pessoal que surge quando se cumpre as leis da kashrut repousa fortemente na abstenção deste tipo de patillos.
PSAK HALAJÁ (JULGAMENTO HALÁCHICO)
Finalmente, o coração da halachá é encontrado na psak halacha (o julgamento haláchico) . Qual é a determinação de como enfrentar uma situação de acordo com os princípios e leis da Torá e do Talmude. Ou seja, no dia a dia somos apresentados a inúmeras situações que podem entrar em conflito com a halachá. Há uma série de princípios que nos ajudam a determinar quando a ação que é teoricamente proibida é realmente permitida e quando a ação que aparentemente seria permitida está realmente transgredindo outra lei e, nesse caso particular, é proibida. Às vezes a resposta é muito clara e, às vezes, deve-se cavar um pouco mais fundo.
Por exemplo, há o princípio haláchico que nos obriga a salvar a vida de uma pessoa sobre qualquer mandato rabínico ou tórico . A Torá proíbe comer carne de porco, mas se alguém está precisando comer carne de porco porque é o único alimento disponível e precisa ser salvo, ou porque o porco precisa combater uma doença, sob este princípio comer carne de porco é permitido pela halachá. No entanto, para ser um julgamento haláchico correto, é preciso saber quando a vida da pessoa é considerada em risco e quando não é.
Há também outro princípio que dá mais peso às mitzvot da Torá do que ao rabínico . É por isso que há momentos em que alguém pode transgredir uma mitzvá rabínica porque tem uma necessidade especial. Por exemplo, ele enfrentará uma perda monetária devastadora, ou se, ao cumprir essa mitsvá em particular, deixar de cumprir outra mitzvá da Torá, como se regozijar no Shabat. Cada caso é particular e o psak halaja é dado por uma pessoa que conhece todos os princípios envolvidos em como julgar a situação e conhece a situação que está sendo apresentada. Tal pessoa deve conhecer os motivos das mitsvot, o modo como a halachá foi elaborada, as decisões que os rabinos anteriores fizeram, as exceções a certas regras que existem e assim por diante. No final da estrada, decide-se se ele ouve ou não.

domingo, 2 de junho de 2019

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terça-feira, 21 de maio de 2019

A REENCARNAÇÃO NO JUDAÍSMO

A REENCARNAÇÃO NO JUDAÍSMO

 
qui, 22 de dezembro, 2005
Não é possível entender a Cabalá sem acreditar na eternidade da alma e suas reencarnações
(Rabi Arieh Kaplan)
Com o nome de Transmigração de Almas (em hebraico Guilgul Neshamot), todos os praticantes do judaísmo, especialmente as correntes ortodoxas - como o hassidismo (aqueles caras que andam de casacos e chapéus pretos) - e cabalistas acreditam que, após a morte, a Alma reencarna numa nova forma física. O conceito da reencarnação consta nos livros Sefer-Há-Bahir (Livro da Iluminação) e no Zôhar (Livro do Esplendor). Ambos atribuem grande importância à doutrina da Reencarnação, usada para explicar que os justos sofrem porque pecaram em uma vida anterior. Nele, o renascimento é comparado a uma vinha que deve ser replantada para que possa produzir boas uvas.
A "Transmigração" emprestou um significado novo a muitos aspectos da vida do povo judeu, pois o marido morto voltava literalmente à vida no filho nascido de sua mulher e seu irmão, num casamento por Levirato. A morte de crianças pequenas era menos trágica, pois elas estariam sendo punidas por pecados anteriores e renasceriam para uma vida nova. Pessoas malvadas eram felizes neste mundo por terem praticado o bem em alguma existência prévia. Prosélitos do judaísmo eram almas judaicas que se haviam encarnado em corpos gentios ou pagãos. Ela também permitia o aperfeiçoamento gradual do indivíduo através de vidas diferente
Zôhar afirma ainda que a redenção do mundo acontecerá quando cada indivíduo, através de "Transmigração das Almas" (Reencarnações), completar sua missão de unificação. Ele nos diz que o termo bíblico "gerações" pode muito bem ser substituído por "encarnações".
Baseado nestes conceitos, os cabalistas desenvolveram a sua própria interpretação sobre a aliança que Deus fez com Abraão e sua semente. Deus disse: "Estabelecerei o meu concerto entre mim e ti, e a tua semente depois de ti, nas suas gerações, por concerto perpétuo. Acreditavam que Deus havia feito esta aliança com a semente de Abraão não apenas por uma vida, mas por milhares de encarnações".
Para os que não acreditam na visão da Cabala, o Antigo Testamento apresenta várias referências sobre a Reencarnação, como por exemplo no Gênesis (Bereshit) , numa tradução fiel ao hebraico:
Quanto a ti, em paz irás para os teus pais, serás sepultado numa velhice feliz. É na quarta geração que eles voltarão para cá, porque até lá a falta(ou erro, ou delito) dos amorreus não terá sido pago
(Gênesis 15:15-16)
Isso é o cumprimento da Lei do Karma e da reencarnação, como já havia falado Deus no livro de Êxodo:
Não te prostrarás diante deles e não o servirás porque Eu, Adonay teu Deus, sou um Deus zeloso, que visito a culpa dos pais sobre os filhos, na terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo, com benevolência ou misericórdia por milhares de (infinitas) gerações(encarnações) , sobre os que me amam e guardam os meus mandamentos
(Êxodo 20:5-6)
Esta é uma tradução fiel ao hebraico, infelizmente não encontrada em algumas Bíblias, que traduzem erroneamente él kaná (Deus zeloso) por Deus ciumento e tornam o Velho Testamento objeto de incompreensão e chacota. Mas isso não é o pior. Vejam a tradução da mesma passagem feita pela Bíblia João Ferreira de Almeida:
Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos
Todas as bíblias trocaram NA terceira geração... por ATÉ a terceira geração..., o que dá a falsa ideia de que Deus pune o mal dos pais nos filhos e netos, quando na verdade são os pais que reencarnam como netos, para pagar o que devem até o último ceitil. Óbvio que isso dos bisnetos não é uma regra (Até porque os pais geralmente estão vivos para serem avós). É antes de tudo um modo de dizer que o espírito vai ser recebido na mesma família, o que acontece com muita freqüência (dependendo, claro, da missão de vida de cada um). Famílias são núcleos problemáticos justamente porque é nelas que você vai pagar seus débitos com o passado, com pessoas que você prejudicou, enganou, matou. Pois se estes viessem como amigos, seria fácil evitá-los, e você nunca se harmonizaria com eles. É por isso que inimigos costumam vir na mesma família. 
Os atuais Rabinos também sabem muito sobre os tempos atuais e a situação dessa nossa geração. O Rabi Shamai Ende escreveu, na revista Chabad News de Dez 98: "O conceito de Guilgul (reencarnação) é originado no judaísmo, sendo que uma alma deve voltar várias vezes até cumprir todas as leis da Torah. Na verdade, cada alma tem dois tipos de missões nesse mundo. A primeira é a missão geral de cumprir todas as mitsvot da Torah. Além disso, cada alma tem uma missão específica. Caso não tenha cumprido a sua, a Alma deve retornar a este mundo para preencher tal lacuna. Somente pessoas especiais sabem exatamente qual é sua missão de vida.
Existem também encarnações punitivas para reparar alguma falha cometida numa vida anterior. Neste caso, a alma pode reencarnar até mesmo no corpo de um não-judeu, de animal ou planta.
Atualmente é um pouco diferente, por estarmos vivendo na última geração do exílio e na primeira da gueulá (redenção), conforme já anunciado pelo Rebe. Maimônides escreve Leis de Techuvá (Retorno ao Judaísmo) onde a Torah prometeu, no final do exílio, que o povo fará Techuvá e imediatamente será redimido. Assim, as almas dessa geração, que vivenciarão a futura redenção, não mais passarão por reencarnações, devendo retificar o quanto antes tudo o que deve ser feito para aproximar a vinda de Mashiach (Messias)."
O Rabino Yossef Benzecry da Sinagoga Beit Chabad, do Recife, confirma a crença na vida após a morte:
O Judaísmo não crê que a vida acabe com a morte. Pelo contrário, a morte, dentro da concepção judaica, é uma continuação desta Vida, se bem que num plano diferente: o plano da alma. Conseqüentemente, a morte conduz, necessariamente, à vida da alma. Segundo a doutrina judaica, é muito difícil fazer-se uma ideia de como é a Vida no Além-túmulo, por ser algo que ultrapassa todas as concepções do cérebro humano. Vivendo esta Vida, presos no solo do mundo, não temos qualquer oportunidade de imaginar o que se passa na outra, tornando-se muito difícil conceber algo que nunca provamos. Exemplificando, seria a mesma coisa que tentar explicar a alguém o gosto de uma fruta desconhecida. Para tanto, ter-se-ia de usar artifícios de linguagem, como comparações com algo que se aproxime no sabor da fruta, o que se tornaria complexo e difícil.
Passagens da Bíblia que as outras religiões deturpam para esconder a Reencarnação:
Salmo 19:8, em Hebraico transliterado: "Torát Iavéh temimáh mshibat nefésh. 'edut Iavéh neemanoáh machkimat péti".
Tradução: "O ensinamento de Deus é perfeito, faz o espírito voltar. O testemunho de Deus é verdadeiro, transforma o simples em sábio."
No entanto, a tradução feita pelas seguintes bíblias alteram o sentido original da reencarnação:
- Bíblia Protestante da SBB (Sociedade Bíblica do Brasil): "A Lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma."
- Bíblia Mensagem de Deus (Edições Loyola): "A lei do Senhor é sem defeito, ela conforta a alma."
- Bíblia de Jerusalém (Edições Paulinas): "A lei de Iahvéh é perfeita, faz a vida voltar."
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Salmo 23, em tradução do hebraico: "Adonai é meu pastor, nada me faltará. Em verdes pastagens me fará descansar. Para a tranqüilidade das águas me conduzirá. Fará meu espírito retornar, e me guiará por caminhos justos, por causa do seu nome. Ainda que eu caminhe pelo vale da morte, não temerei nenhum mal, pois tu estarás comigo. Teu bastão e teu cajado me confortarão. Diante de mim prepararás uma mesa, na presença dos meus provocadores. Tu ungirás minha cabeça com óleo; minha taça transbordará. Certamente, bondade e benevolência me seguirão, todos os dias da minha vida. E voltarei na casa de Adonai por longos anos."
Na tradução feita pela Bíblia católica do Centro Bíblico Católico (Editora Ave Maria) a idéia de retorno é suprimida:
"O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estás comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo. Preparais para mim a mesa a vista dos meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, transborda a minha taça. A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias da minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias."
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Ezequiel 37:11-14: "E disse a mim: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos estão secos e está perdida a nossa esperança. Por isso, profetiza e dize-lhes: Assim diz Adonai, o Senhor Deus: Eis que eu abro vossas sepulturas e vos farei sair delas, ó povo meu e vos reconduzirei à terra de Israel. Saberão que eu Sou quando eu abrir os vossos túmulos e vos elevar de vossas sepulturas, ó povo meu. E dei sobre vós o meu espírito e revivereis e reporei a vós sobre a vossa terra. E eles saberão que eu sou Adonay, disse isto e fiz o oráculo de Adonay."
OBS: Observe que Adonay (Deus) fecha o sentido de renascimento, mostrando que os ossos simbolizam o povo de Israel e que ele fará reencarnar a todos, retirando-os dos seus túmulos e fazendo-os voltar reencarnados à sua terra. Ele (Deus) não fala que os retiraria na ressurreição do último dia, mas que os retiraria da sepultura, fazendo-os renascer e para voltar à terra de Israel, e não aos céus. Aqui não existe dúvida sobre a Reencarnação e esclarece sobre a inexistência de um último dia para a ressurreição, pois Deus fala: "Reporei a vós sobre a vossa TERRA", portanto, voltar à terra não é ressuscitar e sim reencarnar.
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Jó 8:8-9: "Pergunta às gerações passadas ou primeiras e medita a experiências dos antepassados. Porque somos de ontem, não sabemos nada. Nossos dias são uma sombra sobre a terra."
Aqui está uma recomendação de que devemos buscar, no passado, em outras vidas, as causas do nosso sofrimento. Se não lembra de ter na presente vida corporal cometido faltas que justifiquem o seu sofrimento, pergunte às gerações passadas e lá estará com certeza a resposta ao seu questionamento, uma vez que a vida na matéria, impede-nos, como uma espessa sombra, a lembrança de vidas anteriores. Deus, em sua infinita misericórdia, apaga as nossas lembranças para afastar de nós o remorso pelo delito praticado no passado, para podermos evoluir e conviver em paz com nossos semelhantes.
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Eclesiastes 1:4: "Geração vai e geração vem e a terra sempre permanece".
Explica o Rabino Akiba este versículo no livro "BAHIR" da seguinte maneira:
Um rei tinha escravos e ele os vestiu com roupagens de seda e cetim, de acordo com sua capacidade. O relacionamento se rompeu e ele os expulsou, os repeliu e tirou deles suas roupagens. Eles, então, seguiram seus próprios caminhos. O rei tomou as roupagens, as lavou bem, até não haver nelas uma única mancha. Colocou-as com seus comerciantes, comprou outros escravos e os vestiu com as mesmas roupagens. Não sabia se os escravos eram bons ou não, mas eram (pelo menos) dignos das roupagens que ele já possuía, as quais já haviam sido usadas anteriormente. É o mesmo que Eclesiastes 12:6: "O pó retorna a terra como era, mas o espírito retorna a Deus, que o deu".
Este exemplo do Rabino Akiba explica tudo: as roupas de seda e cetim com que o rei vestiu os escravos são os corpos sadios que Deus dá a cada um de nós dos quais muitos abusam. Então Deus os toma e deixa que cada um siga o seu próprio destino, escolhido pelo seu livre-arbítrio. Deus então escolhe outros corpos e neles coloca estes mesmos espíritos, através da Reencarnação, segundo a necessidade de evolução de cada um.
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O livro da Sabedoria é atribuído a Salomão, embora saibamos que se trata de uma ficção literária (foi escrito 900 anos depois da morte dele). O desconhecido autor deve ter escrito para os judeus que falavam grego e viviam fora da Palestina, provavelmente no Egito. Foi escrito entre os séculos IV e I na Era Comum e só é aceito pelos católicos, como já vimos em capítulo anterior, no entanto, apresenta conceitos referentes ao Carma e à Reencarnação.
No capítulo 8:19 vemos: "Eu era um jovem de boas qualidades, coubera-me, por sorte, uma boa alma; ou antes, sendo bom, entrara num corpo sem mancha".
Aqui está claro que o autor acreditava que a alma existe antes do corpo. Por ser boa, a alma entrou num corpo imaculado ou sem mancha como vemos no texto. E perguntamos: Se a alma nunca tivesse encarnado antes num corpo terreno, como e onde teria se tornado boa? O autor dá a entender que as atitudes de uma existência anterior acompanharam o espírito e se acumularam nas diversas existências pregressas. Estes conceitos estão de acordo com a crença e os princípios judaicos que. falando de família, dizem : "Eu vim para uma família grande" (ani bá lamishpahá gadol) e não "eu sou de uma família grande", como os ocidentais costumam dizer. A ideia é que eles escolheram a família ainda no mundo espiritual, como fala Deus em Jeremias 1:5: "Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; e antes que saísses do útero materno, eu te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações pagãs."

Se alguém tiver desconfiança quanto às traduções do original hebraico, sugiro consultar nas melhores livrarias a Torah (Velho Testamento) que contém o original e ao lado a tradução correta pro português.

Os Ossos da Matéria

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