sábado, 29 de junho de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Judeus na China

Ninguém sabe ao certo quando os chineses tiveram o primeiro contato com os judeus. Certos historiadores afirmam que, a partir do século VIII, os mercadores judeus que viajavam pelo mundo chegaram "A China", nação mercantilista por excelência.
Documentos datados de 717 atestam o estabelecimento no império chinês, de comerciantes judeus vindos do Oriente Médio. Uma carta
escrita por volta do ano 718, por um mercador interessado em vender algumas ovelhas, e descoberta na região ocidental da China, há cerca de um século, é um dos inúmeros sinais que, segundo estudiosos, comprovam a centenária presença judaica no país. A carta, escrita em judeu-persa com letras hebraicas, em um tipo de papel produzido até então apenas pelos chineses, utiliza uma linguagem comercial comum na Ásia Central, no período. Posteriormente, foi encontrado nas Cavernas de Mil Budas, em Dunhuang, um outro documento em hebraico: uma das selichot.
Circulam várias histórias sobre a vida dos judeus na China. Uma delas conta que em 880, um judeu chamado Eldad HaDani, foi capturado por bandidos e levado à China, onde foi libertado por um comerciante de origem judaica. Este episódio é mencionado por Rashi e por Hasdai ibn Shaprut. Outra referência à presença judaica foi encontrada em meio a documentos do diretor-geral dos Correios de Bagdá, Ibn Khurdadbih, na qual mencionava mercadores judeus conhecidos como Radanitas, que viajavam pelas regiões da Espanha, França e China. No século X, o cronista muçulmano Abu Kaid a-Sirafi escreveu sobre a captura da cidade de Khanfhu (provavelmente Guang-chu, ou Cantão), nos anos 877 e 878, mencionando o massacre de muçulmanos, cristãos e mercadores judeus na região.
Há também relatos de encontros de viajantes cristãos com judeus no final do século XII. Outro relato foi feito por Marco Polo em seus diários de viagem, em 1286, afirmando ter encontrado judeus em Khanbalik (Pequim), durante sua visita à corte do rei Kubilai Khan. Pouco depois, o missionário franciscano John de Montecorvino reafirmava em suas cartas, a presença judaica no país e, em 1326, o missionário Andrew de Perugia escrevia dizendo que os judeus de Guang-chu recusavam-se obstinadamente a abrir mão de sua fé e aceitar o batismo. Em 1342, John de Marignoli contou, em correspondência, ter participado de “gloriosas disputas” intelectuais em Pequim com muçulmanos e judeus. O viajante muçulmano Ibn Battuta também falou sobre a presença judaica na China, quando chegou na cidade de Hangzhou, em 1346. Segundo narra, ele e seu grupo entraram na cidade através de um portão chamado “Portão dos judeus”, enfatizando que ali viviam “muitos judeus, cristãos e turcos, adoradores do sol”.
Novas evidências da vida judaica na China apareceram posteriormente, em meados do século XVI, mais uma vez na troca de correspondência entre missioná-rios, entre os quais Francisco Xavier, posteriormente canonizado pelo trabalho que realizou no Extremo Oriente. O viajante português Galleato Pereira, ao escrever sobre o tempo em que ficou preso na China, entre 1549 e 1561, afirmou que nos tribunais chineses gentios e judeus faziam os juramentos cada um em sua própria fé.
A vida dos judeus em territórios chineses pode ser considerada tranqüila, pois não há registro de perseguições pelas autoridades, fato que teria levado à assimilação. Dizem os estudiosos que esta situação deve-se ao fato de que a filosofia confucionista, vigente na China desde o século V a.E.C., não perseguia os seguidores de outras religiões.
A comunidade judaica de Kaifeng
Coube ao jesuíta Matteo Ricci “descobrir”, no início do séc. XVII, os judeus de Kaifeng. Segundo seus relatos, a comunidade judaica de Kaifeng observava escrupulosamente as leis da Torá, falava o hebraico e sua sinagoga era suntuosa. Infelizmente a revolução chinesa de 1644, que levou ao poder a dinastia Ching, provocara a destruição da sinagoga e dos livros sagrados, além de um declínio geral na vida comunitária judaica. Apesar da sinagoga ter sido reconstruída, a vida judaica perdeu grande parte de sua vitalidade após esses eventos.
No século XVIII, os jesuítas que visitaram a cidade de Kaifeng aproximaram-se dos judeus e estudaram os seus textos sagrados. Durante este período, houve intensa troca de cartas entre Pequim e Roma e este material se tornou parte dos arquivos do Vaticano. Nessas cartas os religiosos descreviam a vida cotidiana e os costumes dos judeus chineses, ressaltando o orgulho e a maneira como cuidavam da sinagoga.
Jean Domenge, jesuíta que visitou os judeus chineses em 1722, fez alguns esboços da parte interna e externa da sinagoga de Kaifeng, registrando o grau de assimilação que já havia no seio da comunidade judaica local. De acordo com a descrição de Domenge, a sinagoga de Kaifeng seguia o estilo arquitetônico local, com muitas áreas dedicadas aos ancestrais e personagens ilustres da histórica judaica. Denominada Templo da Pureza e da Verdade – nome comum também para as mesquitas – tinha uma área separada para o sacrifício de animais. No seu interior, havia também uma mesa na qual se queimava incenso em honra dos patriarcas Abraham, Itzhak e Jacob.
Durante o Shabat, de acordo com Domenge, os judeus liam a Torá, mas somente depois que esta fosse colocada em uma “cadeira especial para Moisés”. Acima da cadeira, havia uma placa com os seguintes dizeres em dourado: “Longa vida para o Grande Imperador Qing (referência ao nome da dinastia). Era uma exigência do governo para os templos judaicos, muçulmanos, confucionistas, budistas e taoístas, que vigorou até o estabelecimento da República da China, em 1911. Nas sinagogas, no entanto, os judeus incluíram em hebraico a prece do Shemá, acima do texto em chinês, já que esta não poderia ser compreendida pelos não-judeus. Desta maneira, somente D’us e eles sabiam que o Todo-Poderoso estava acima de tudo.
Documentos dos jesuítas mencionam também dois monumentos com inscrições, erguidos na área externa da sinagoga de Kaifeng. Uma das inscrições, datada de 1489, fala sobre a história e a crenças dos judeus, ressaltando o ano de 1421, quando o imperador conferiu o sobrenome Zhao ao médico judeu An Ch’em, ato que simbolizou a aceitação dos judeus na socie-dade chinesa. A partir dessa data, os judeus poderiam integrar-se aos serviços públicos. Esta inscrição também mencio-na o que seria o início da presença judaica em Kaifeng, em 960. Nesse ano, seguindo a Rota da Seda, um grupo de judeus persas – mercadores ou refugiados de perseguições em seu país de origem – instalaram-se na cidade, sendo recebidos pelo então imperador da Dinastia Sung, do qual ouviram as seguintes palavras: “Vocês vieram para a nossa China. Respeitem e preservem os costumes de seus ancestrais e os reverenciem aqui em Pien-liang (Kaifeng)”.
No mesmo texto, ainda, conta-se que a primeira sinagoga foi construída em 1163. Na parte de trás deste monumento, há uma inscrição datada de 1512 que sugere a existência de comunidades judaicas em outras regiões da China, como por exemplo, a doação de um rolo de Torá feita pelo sr. Gold (Jin, em chinês), de Hangzhou, para a comunidade de Kaifeng. Na inscrição encontra-se também uma tentativa de traçar um paralelo entre os princípios básicos do confucionismo e do judaísmo, algo facilmente identificável, pois ambas as religiões enfatizam a aplicação de princípios morais na vida cotidiana.
Segundo pesquisas feitas por historiadores, desde a sua chegada a Kaifeng, os judeus se instalaram em um bairro que se tornou conhecido como “A Rua
Daqueles que Ensinam as Escrituras”. A primeira sinagoga foi construída no entroncamento das ruas “Mercado da Terra” e “Deus do Fogo”. O monumento erguido em 1489 marcava a reinauguração do templo que fora destruído durante uma enchente.
Ainda segundo estudiosos da presença judaica na China, foi durante a dinastia Ming (de 1368 a 1644) que um imperador determinou os sete sobrenomes que os judeus poderiam adotar: Ai, Lao, Jin, Li, Shi, Zhang e Zhao. Aliás, até hoje, eles podem ser identificados por esses mesmos nomes. Dois deles chamaram a atenção dos historiadores – Shi e Jin, que significam respectivamente Stone e Gold, sobrenomes muito comuns entre os judeus ocidentais.
Em 1724, o então imperador Yong Zheng proibiu o proselitismo e a presença de missionários de qualquer religião no país. Assim, o contato entre judeus do país e de outras nações tornou-se cada vez mais difícil, fazendo crescer a assimilação. Uma carta de um judeu de Kaifeng, datada do século XIX, reflete bem a situação: “De manhã e de noite, com lágrimas em nossos olhos e oferendas de incensos, imploramos que a nossa religião possa florescer novamente. Temos procurado em todos os cantos, mas não encontramos ninguém que pudesse entender as letras do Grande País (Hebraico) e isto nos deixa profundamente tristes”.
A ausência de rabinos e uma sinagoga em decadência foram as principais razões para a falta de perspectiva futura para a comunidade judaica. Embora os costumes da circuncisão e da cashrut ainda fossem mantidos, a pobreza crescente entre a população judaica – e também entre seus vizinhos chineses – levou à venda de algumas áreas da sinagoga e também dos manuscritos sagrados, muitos adquiridos por missionários protestantes. Alguns destes documentos encontram-se atualmente na Biblioteca Klau do Hebrew Union College, em Cincinnati (EUA).
Os poucos judeus que ainda vivem em Kaifeng quase não conhecem o hebraico e mantêm as tradições dos seus ancestrais mescladas com as da cultura chinesa. No entanto, não têm a menor dúvida quanto ao fato de seremdescendentes dos mercadores judeus recebidos pelo imperador em 960.
A Era Moderna e o surgimento de outras comunidades
Como vimos, Kaifeng, principalmente a partir do estabelecimento de mercadores judeus na China, foi sem dúvida o grande centro judaico do século XII até o XIX. Mas, com o início da Era Moderna, há um renascimento da vida judaica na China.
O tratado de Nankin, de 1842, e a abertura dos portos chineses ao comércio com o Ocidente levou para Xangai a primeira imigração judaica moderna. Comerciantes judeus vindos do Oriente Médio, principalmente de Bagdá, instalam-se na cidade, fazendo-a prosperar. Entre as famílias que lá se estabelecem, podemos mencionar os Sassoon, Hardouyi, Ezra e Kadoory. Várias sinagogas são erguidas por estas famílias: a sinagoga Beth Aaron, que não existe mais, pelos Hardouyi; a sinagoga Ohel Rachel, por Victor Sassoon. A atual sede do Shangai Children Palace era a suntuosa residência dos Kadoory. Em 1920 a comunidade de Shangai tinha 700 membros e mantinha relações amigáveis com os chineses.
Na década de 1930, inicia-se uma segunda imigração de judeus para a China, composta basicamente de judeus russos. Incentivos dados às minorias pelo governo de Moscou para povoar a região, em função de um projeto conjunto sino-russo – a construção de uma ferrovia que ligava a Rússia à Ásia Oriental – faz com que os judeus russos se instalem tanto em Harbin, ao norte do país (na Manchúria), centro do projeto, como na cidade de Tientsin.
A Comunidade da Minoria Judaica foi estabelecida em Harbin em 16 de fevereiro de 1903 e contava com 500 pessoas. O seu primeiro rabino foi Shevel Levin, que já tinha trabalhado como líder espiritual em Omsk e em Chita, na Sibéria. No início do século XX, a população de Harbin aumentou com a chegada de judeus que fugiam dos pogroms e de soldados russos que haviam lutado contra o Japão. Em 1910, a população judaica da cidade girava em torno de dez mil pessoas. Com a Revolução Russa de 1917 e a guerra civil que se seguiu, mais judeus se refugiaram em Harbin, atigindo a marca de 20 mil em1920. Foram também para Tianjin e Shangai.
Longe da opressão dos czares, os judeus passaram a ter um papel proeminente na sociedade de Harbin, trabalhando na Bolsa de Valores e assumindo cargos municipais. Atuavam também nas empresas de carvão, na exportação de óleo de soja e feijão, trigo e peles para a Rússia, Europa e América. Tornaram-se donos de fábricas, cafés e restaurantes. A comunidade mantinha ainda dois bancos, um hospital, uma escola e um lar para idosos, além de possuir um refeitório que oferecia refeições gratuitas aos necessitados e um serviço de assistência social. Sem dúvida, a comunidade de Harbin foi um refúgio para aqueles que fugiam da Rússia. Apesar de a maioria dos judeus da região falar russo e ídiche, rapidamente aprenderam também o chinês. Os jovens eram membros de movimentos como Betar e Macabi e as atividades sionistas proliferavam, despertando na juventude o desejo de emigrar para Eretz Israel. Havia comunistas e socialistas e debates intensos marcavam a vida comunitária. Entre as lideranças locais destacavam-se o rabino Aaron Kiselev, que viveu em Harbin de 1913 até a sua morte, em 1949; e o dr. Abraham Kaufman, presidente do Conselho Na-cional Judaico.
Com a ocupação da Manchúria pelo Japão, em 1931, os judeus viram a sua liberdade diminuir, gradativamente. Alguns decidiram partir para países do Ocidente, outros voltaram para a Rússia – voluntária ou forçosamente; outros grupos estabeleceram-se em Pequim, Tienjin, Shangai e Hong Kong, cidades nas quais havia comunidades judaicas bem estruturadas. Em 1903, por exemplo, havia três sinagogas em Shangai.
Com a ascensão do nazismo na Europa, a cidade recebeu 25 mil judeus, pois era o único lugar do mundo para onde se podia emigrar sem visto e que aceitava receber judeus. A maioria chegava sem recurso algum e eram ajudados pela comunidade judaica de Shangai.
Com a conquista da cidade pelos japoneses – aliados dos nazistas durante a Segunda Guerra – inúmeros judeus foram mantidos em regime semi-interno num gueto criado em Hongkew. As condições de vida eram intoleráveis e centenas de judeus acabaram morrendo de fome. Com o fim da guerra, a maioria dos judeus que haviam sobrevivido decidiram deixar a China.
Em 1945 foi a vez dos russos reocuparem a Manchúria, acusando em seguida as lideranças judaicas de cooperação com os japoneses e traição à Rússia.
Muitos foram presos e morreram nos campos de trabalhos forçados de Stalin. Abraham Kaufman, por exemplo, foi interrogado durante três anos seguidos na conhecida prisão Lubyanka, em Moscou, e condenado a dez anos de trabalhos forçados. Sobrevivendo, apesar de tudo, reuniu-se com a família em Israel.
Tentando refazer a trajetória de seus pais, a professora Zvia Borman visitou a cidade de Harbin, em 1999. Ela andou pelas lápides do cemitério judaico e encontrou o túmulo do rabino Kiselev. Entrou na velha sinagoga e visitou a antiga escola secundária judaica. O hospital agora é um estabelecimento chinês e a escola para crianças tornou-se um instituto educacional coreano. A casa em que seus pais moravam foi derrubada e em seu lugar erguida uma moderna construção em estilo ocidental. Segundo Zvia, sua família foi a última a deixar a cidade, estabelecendo-se em Israel, na cidade de Natânia.Ressurgimento judaico
A vida judaica está ressurgindo na China, apesar do judaísmo não ser reconhecido pelo governo chinês como religião, assim como não o são os outros credos. Em 29 de novembro do ano 2000, em Shangai, foram oficiados os serviços religiosos de Rosh Hashaná, na Sinagoga Ohel Rachel, pela primeira vez nos últimos 50 anos. Construída pela família Sassoon em 1920, não está aberta ao público durante o ano, exceto através de visitas organizadas. A cidade possui, também, uma biblioteca e um museu judaico. O Consulado Geral de Israel da cidade serve como ponte entre o Estado de Israel e as províncias de Shangai, Jiangsu, Zhejiang e Anhui. Seu objetivo é aumentar o intercâmbio cultural, comercial e tecnológico entre os dois povos.
Os judeus tiveram um papel preponderante na história de Hong Kong desde os primeiros anos da cidade como colônia britânica. Oriundos de Bagdá, Norte da África e Grã-Bretanha, marcaram sua presença na região, como revelam nomes de ruas e avenidas, entre as quais a Via Nathan e a Avenida Kadoory. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Gueto de Hongkew tornou-se o lar de aproximadamente 20 mil refugiados da Europa Central.
Segundo estimativas, há cerca de vinte mil judeus vivendo atualmente em Hong Kong, vindos principalmente dos Estados Unidos, Inglaterra, França, África do Sul e Israel. Mais de 30 mil visitantes judeus passam pela região anualmente, levados por negócios ou apenas lazer. Com sinagogas, museus e um Centro Comunitário Judaico, Hong Kong oferece várias opções para quem busca uma vida plena de judaísmo.
Em 1991 foi fundada a Escola Carmel, em Hong Kong, a primeira escola judaica do leste asiático e uma das mais respeitadas instituições internacionais de ensino, com mais de 250 alunos da pré-escola ao ensino médio, oferecendo um currículo secular que segue os moldes das escolas americanas e um programa de estudos judaicos.
Há também uma comunidade judaica em Pequim na qual são realizados serviços religiosos de Shabat, comemoração das Grandes Festas e uma série de outras atividades. A Kehilá de Pequim, como é denominada, faz parte do consórcio judaico da Internet, Shamash. n
Bibliografia:
Return to China, artigo publicado na edição de 22 de junho de 2001 do Jewish Chronicle
Gross, Davic C., The Jewish People’s Almanac
The Jews of China, artigo publicado pelo Dr. Wendy Abraham, do Departamento de Línguas Asiáticas da Universidade de Stanford
Jewish Communities of the World, pelo Dr. Avi Beker, Institute of the World Jewish Congress
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Anos mais tarde, porém, o mesmo rabino decidiu escrever-lhe e pedir desculpas por sua atitude, dizendo que pensara que a carta recebida no passado fosse uma fraude. Hung-Mo, no entanto, não tem a menor dúvida sobre o fato de ser judeu e sempre fala das lembranças de sua infância, quando o pai o levava ao cemitério e lhe mostrava lápides com inscrições em hebraico.
Rumores sobre a existência de um judeu em Taipé despertaram a curiosidade do rabino Marvin Tokayer que, durante suas atividades como líder espiritual em Tóquio, decidiu visitar a ilha para saber se os boatos eram verdadeiros. Ao chegar a Taipé, o religioso encontrou um obstáculo para localizar Hung-Mo – o fato de inúmeras pessoas terem o mesmo nome. Para localizar o indivíduo correto, o rabino Tokayer fez uma pesquisa nos registros demográficos e chegou a Hung-Mo averiguando um item específico – o hebraico, citado como segunda língua.

Ninguém sabe ao certo quando os chineses tiveram o primeiro contato com os judeus. Certos historiadores afirmam que, a partir do século VIII, os mercadores judeus que viajavam pelo mundo chegaram "A China", nação mercantilista por excelência.
Documentos datados de 717 atestam o estabelecimento no império chinês, de comerciantes judeus vindos do Oriente Médio. Uma carta
escrita por volta do ano 718, por um mercador interessado em vender algumas ovelhas, e descoberta na região ocidental da China, há cerca de um século, é um dos inúmeros sinais que, segundo estudiosos, comprovam a centenária presença judaica no país. A carta, escrita em judeu-persa com letras hebraicas, em um tipo de papel produzido até então apenas pelos chineses, utiliza uma linguagem comercial comum na Ásia Central, no período. Posteriormente, foi encontrado nas Cavernas de Mil Budas, em Dunhuang, um outro documento em hebraico: uma das selichot.
Circulam várias histórias sobre a vida dos judeus na China. Uma delas conta que em 880, um judeu chamado Eldad HaDani, foi capturado por bandidos e levado à China, onde foi libertado por um comerciante de origem judaica. Este episódio é mencionado por Rashi e por Hasdai ibn Shaprut. Outra referência à presença judaica foi encontrada em meio a documentos do diretor-geral dos Correios de Bagdá, Ibn Khurdadbih, na qual mencionava mercadores judeus conhecidos como Radanitas, que viajavam pelas regiões da Espanha, França e China. No século X, o cronista muçulmano Abu Kaid a-Sirafi escreveu sobre a captura da cidade de Khanfhu (provavelmente Guang-chu, ou Cantão), nos anos 877 e 878, mencionando o massacre de muçulmanos, cristãos e mercadores judeus na região.
Há também relatos de encontros de viajantes cristãos com judeus no final do século XII. Outro relato foi feito por Marco Polo em seus diários de viagem, em 1286, afirmando ter encontrado judeus em Khanbalik (Pequim), durante sua visita à corte do rei Kubilai Khan. Pouco depois, o missionário franciscano John de Montecorvino reafirmava em suas cartas, a presença judaica no país e, em 1326, o missionário Andrew de Perugia escrevia dizendo que os judeus de Guang-chu recusavam-se obstinadamente a abrir mão de sua fé e aceitar o batismo. Em 1342, John de Marignoli contou, em correspondência, ter participado de “gloriosas disputas” intelectuais em Pequim com muçulmanos e judeus. O viajante muçulmano Ibn Battuta também falou sobre a presença judaica na China, quando chegou na cidade de Hangzhou, em 1346. Segundo narra, ele e seu grupo entraram na cidade através de um portão chamado “Portão dos judeus”, enfatizando que ali viviam “muitos judeus, cristãos e turcos, adoradores do sol”.
Novas evidências da vida judaica na China apareceram posteriormente, em meados do século XVI, mais uma vez na troca de correspondência entre missioná-rios, entre os quais Francisco Xavier, posteriormente canonizado pelo trabalho que realizou no Extremo Oriente. O viajante português Galleato Pereira, ao escrever sobre o tempo em que ficou preso na China, entre 1549 e 1561, afirmou que nos tribunais chineses gentios e judeus faziam os juramentos cada um em sua própria fé.
A vida dos judeus em territórios chineses pode ser considerada tranqüila, pois não há registro de perseguições pelas autoridades, fato que teria levado à assimilação. Dizem os estudiosos que esta situação deve-se ao fato de que a filosofia confucionista, vigente na China desde o século V a.E.C., não perseguia os seguidores de outras religiões.
A comunidade judaica de Kaifeng
Coube ao jesuíta Matteo Ricci “descobrir”, no início do séc. XVII, os judeus de Kaifeng. Segundo seus relatos, a comunidade judaica de Kaifeng observava escrupulosamente as leis da Torá, falava o hebraico e sua sinagoga era suntuosa. Infelizmente a revolução chinesa de 1644, que levou ao poder a dinastia Ching, provocara a destruição da sinagoga e dos livros sagrados, além de um declínio geral na vida comunitária judaica. Apesar da sinagoga ter sido reconstruída, a vida judaica perdeu grande parte de sua vitalidade após esses eventos.
No século XVIII, os jesuítas que visitaram a cidade de Kaifeng aproximaram-se dos judeus e estudaram os seus textos sagrados. Durante este período, houve intensa troca de cartas entre Pequim e Roma e este material se tornou parte dos arquivos do Vaticano. Nessas cartas os religiosos descreviam a vida cotidiana e os costumes dos judeus chineses, ressaltando o orgulho e a maneira como cuidavam da sinagoga.
Jean Domenge, jesuíta que visitou os judeus chineses em 1722, fez alguns esboços da parte interna e externa da sinagoga de Kaifeng, registrando o grau de assimilação que já havia no seio da comunidade judaica local. De acordo com a descrição de Domenge, a sinagoga de Kaifeng seguia o estilo arquitetônico local, com muitas áreas dedicadas aos ancestrais e personagens ilustres da histórica judaica. Denominada Templo da Pureza e da Verdade – nome comum também para as mesquitas – tinha uma área separada para o sacrifício de animais. No seu interior, havia também uma mesa na qual se queimava incenso em honra dos patriarcas Abraham, Itzhak e Jacob.
Durante o Shabat, de acordo com Domenge, os judeus liam a Torá, mas somente depois que esta fosse colocada em uma “cadeira especial para Moisés”. Acima da cadeira, havia uma placa com os seguintes dizeres em dourado: “Longa vida para o Grande Imperador Qing (referência ao nome da dinastia). Era uma exigência do governo para os templos judaicos, muçulmanos, confucionistas, budistas e taoístas, que vigorou até o estabelecimento da República da China, em 1911. Nas sinagogas, no entanto, os judeus incluíram em hebraico a prece do Shemá, acima do texto em chinês, já que esta não poderia ser compreendida pelos não-judeus. Desta maneira, somente D’us e eles sabiam que o Todo-Poderoso estava acima de tudo.
Documentos dos jesuítas mencionam também dois monumentos com inscrições, erguidos na área externa da sinagoga de Kaifeng. Uma das inscrições, datada de 1489, fala sobre a história e a crenças dos judeus, ressaltando o ano de 1421, quando o imperador conferiu o sobrenome Zhao ao médico judeu An Ch’em, ato que simbolizou a aceitação dos judeus na socie-dade chinesa. A partir dessa data, os judeus poderiam integrar-se aos serviços públicos. Esta inscrição também mencio-na o que seria o início da presença judaica em Kaifeng, em 960. Nesse ano, seguindo a Rota da Seda, um grupo de judeus persas – mercadores ou refugiados de perseguições em seu país de origem – instalaram-se na cidade, sendo recebidos pelo então imperador da Dinastia Sung, do qual ouviram as seguintes palavras: “Vocês vieram para a nossa China. Respeitem e preservem os costumes de seus ancestrais e os reverenciem aqui em Pien-liang (Kaifeng)”.
No mesmo texto, ainda, conta-se que a primeira sinagoga foi construída em 1163. Na parte de trás deste monumento, há uma inscrição datada de 1512 que sugere a existência de comunidades judaicas em outras regiões da China, como por exemplo, a doação de um rolo de Torá feita pelo sr. Gold (Jin, em chinês), de Hangzhou, para a comunidade de Kaifeng. Na inscrição encontra-se também uma tentativa de traçar um paralelo entre os princípios básicos do confucionismo e do judaísmo, algo facilmente identificável, pois ambas as religiões enfatizam a aplicação de princípios morais na vida cotidiana.
Segundo pesquisas feitas por historiadores, desde a sua chegada a Kaifeng, os judeus se instalaram em um bairro que se tornou conhecido como “A Rua
Daqueles que Ensinam as Escrituras”. A primeira sinagoga foi construída no entroncamento das ruas “Mercado da Terra” e “Deus do Fogo”. O monumento erguido em 1489 marcava a reinauguração do templo que fora destruído durante uma enchente.
Ainda segundo estudiosos da presença judaica na China, foi durante a dinastia Ming (de 1368 a 1644) que um imperador determinou os sete sobrenomes que os judeus poderiam adotar: Ai, Lao, Jin, Li, Shi, Zhang e Zhao. Aliás, até hoje, eles podem ser identificados por esses mesmos nomes. Dois deles chamaram a atenção dos historiadores – Shi e Jin, que significam respectivamente Stone e Gold, sobrenomes muito comuns entre os judeus ocidentais.
Em 1724, o então imperador Yong Zheng proibiu o proselitismo e a presença de missionários de qualquer religião no país. Assim, o contato entre judeus do país e de outras nações tornou-se cada vez mais difícil, fazendo crescer a assimilação. Uma carta de um judeu de Kaifeng, datada do século XIX, reflete bem a situação: “De manhã e de noite, com lágrimas em nossos olhos e oferendas de incensos, imploramos que a nossa religião possa florescer novamente. Temos procurado em todos os cantos, mas não encontramos ninguém que pudesse entender as letras do Grande País (Hebraico) e isto nos deixa profundamente tristes”.
A ausência de rabinos e uma sinagoga em decadência foram as principais razões para a falta de perspectiva futura para a comunidade judaica. Embora os costumes da circuncisão e da cashrut ainda fossem mantidos, a pobreza crescente entre a população judaica – e também entre seus vizinhos chineses – levou à venda de algumas áreas da sinagoga e também dos manuscritos sagrados, muitos adquiridos por missionários protestantes. Alguns destes documentos encontram-se atualmente na Biblioteca Klau do Hebrew Union College, em Cincinnati (EUA).
Os poucos judeus que ainda vivem em Kaifeng quase não conhecem o hebraico e mantêm as tradições dos seus ancestrais mescladas com as da cultura chinesa. No entanto, não têm a menor dúvida quanto ao fato de seremdescendentes dos mercadores judeus recebidos pelo imperador em 960.
A Era Moderna e o surgimento de outras comunidades
Como vimos, Kaifeng, principalmente a partir do estabelecimento de mercadores judeus na China, foi sem dúvida o grande centro judaico do século XII até o XIX. Mas, com o início da Era Moderna, há um renascimento da vida judaica na China.
O tratado de Nankin, de 1842, e a abertura dos portos chineses ao comércio com o Ocidente levou para Xangai a primeira imigração judaica moderna. Comerciantes judeus vindos do Oriente Médio, principalmente de Bagdá, instalam-se na cidade, fazendo-a prosperar. Entre as famílias que lá se estabelecem, podemos mencionar os Sassoon, Hardouyi, Ezra e Kadoory. Várias sinagogas são erguidas por estas famílias: a sinagoga Beth Aaron, que não existe mais, pelos Hardouyi; a sinagoga Ohel Rachel, por Victor Sassoon. A atual sede do Shangai Children Palace era a suntuosa residência dos Kadoory. Em 1920 a comunidade de Shangai tinha 700 membros e mantinha relações amigáveis com os chineses.
Na década de 1930, inicia-se uma segunda imigração de judeus para a China, composta basicamente de judeus russos. Incentivos dados às minorias pelo governo de Moscou para povoar a região, em função de um projeto conjunto sino-russo – a construção de uma ferrovia que ligava a Rússia à Ásia Oriental – faz com que os judeus russos se instalem tanto em Harbin, ao norte do país (na Manchúria), centro do projeto, como na cidade de Tientsin.
A Comunidade da Minoria Judaica foi estabelecida em Harbin em 16 de fevereiro de 1903 e contava com 500 pessoas. O seu primeiro rabino foi Shevel Levin, que já tinha trabalhado como líder espiritual em Omsk e em Chita, na Sibéria. No início do século XX, a população de Harbin aumentou com a chegada de judeus que fugiam dos pogroms e de soldados russos que haviam lutado contra o Japão. Em 1910, a população judaica da cidade girava em torno de dez mil pessoas. Com a Revolução Russa de 1917 e a guerra civil que se seguiu, mais judeus se refugiaram em Harbin, atigindo a marca de 20 mil em1920. Foram também para Tianjin e Shangai.
Longe da opressão dos czares, os judeus passaram a ter um papel proeminente na sociedade de Harbin, trabalhando na Bolsa de Valores e assumindo cargos municipais. Atuavam também nas empresas de carvão, na exportação de óleo de soja e feijão, trigo e peles para a Rússia, Europa e América. Tornaram-se donos de fábricas, cafés e restaurantes. A comunidade mantinha ainda dois bancos, um hospital, uma escola e um lar para idosos, além de possuir um refeitório que oferecia refeições gratuitas aos necessitados e um serviço de assistência social. Sem dúvida, a comunidade de Harbin foi um refúgio para aqueles que fugiam da Rússia. Apesar de a maioria dos judeus da região falar russo e ídiche, rapidamente aprenderam também o chinês. Os jovens eram membros de movimentos como Betar e Macabi e as atividades sionistas proliferavam, despertando na juventude o desejo de emigrar para Eretz Israel. Havia comunistas e socialistas e debates intensos marcavam a vida comunitária. Entre as lideranças locais destacavam-se o rabino Aaron Kiselev, que viveu em Harbin de 1913 até a sua morte, em 1949; e o dr. Abraham Kaufman, presidente do Conselho Na-cional Judaico.
Com a ocupação da Manchúria pelo Japão, em 1931, os judeus viram a sua liberdade diminuir, gradativamente. Alguns decidiram partir para países do Ocidente, outros voltaram para a Rússia – voluntária ou forçosamente; outros grupos estabeleceram-se em Pequim, Tienjin, Shangai e Hong Kong, cidades nas quais havia comunidades judaicas bem estruturadas. Em 1903, por exemplo, havia três sinagogas em Shangai.
Com a ascensão do nazismo na Europa, a cidade recebeu 25 mil judeus, pois era o único lugar do mundo para onde se podia emigrar sem visto e que aceitava receber judeus. A maioria chegava sem recurso algum e eram ajudados pela comunidade judaica de Shangai.
Com a conquista da cidade pelos japoneses – aliados dos nazistas durante a Segunda Guerra – inúmeros judeus foram mantidos em regime semi-interno num gueto criado em Hongkew. As condições de vida eram intoleráveis e centenas de judeus acabaram morrendo de fome. Com o fim da guerra, a maioria dos judeus que haviam sobrevivido decidiram deixar a China.
Em 1945 foi a vez dos russos reocuparem a Manchúria, acusando em seguida as lideranças judaicas de cooperação com os japoneses e traição à Rússia.
Muitos foram presos e morreram nos campos de trabalhos forçados de Stalin. Abraham Kaufman, por exemplo, foi interrogado durante três anos seguidos na conhecida prisão Lubyanka, em Moscou, e condenado a dez anos de trabalhos forçados. Sobrevivendo, apesar de tudo, reuniu-se com a família em Israel.
Tentando refazer a trajetória de seus pais, a professora Zvia Borman visitou a cidade de Harbin, em 1999. Ela andou pelas lápides do cemitério judaico e encontrou o túmulo do rabino Kiselev. Entrou na velha sinagoga e visitou a antiga escola secundária judaica. O hospital agora é um estabelecimento chinês e a escola para crianças tornou-se um instituto educacional coreano. A casa em que seus pais moravam foi derrubada e em seu lugar erguida uma moderna construção em estilo ocidental. Segundo Zvia, sua família foi a última a deixar a cidade, estabelecendo-se em Israel, na cidade de Natânia.Ressurgimento judaico
A vida judaica está ressurgindo na China, apesar do judaísmo não ser reconhecido pelo governo chinês como religião, assim como não o são os outros credos. Em 29 de novembro do ano 2000, em Shangai, foram oficiados os serviços religiosos de Rosh Hashaná, na Sinagoga Ohel Rachel, pela primeira vez nos últimos 50 anos. Construída pela família Sassoon em 1920, não está aberta ao público durante o ano, exceto através de visitas organizadas. A cidade possui, também, uma biblioteca e um museu judaico. O Consulado Geral de Israel da cidade serve como ponte entre o Estado de Israel e as províncias de Shangai, Jiangsu, Zhejiang e Anhui. Seu objetivo é aumentar o intercâmbio cultural, comercial e tecnológico entre os dois povos.
Os judeus tiveram um papel preponderante na história de Hong Kong desde os primeiros anos da cidade como colônia britânica. Oriundos de Bagdá, Norte da África e Grã-Bretanha, marcaram sua presença na região, como revelam nomes de ruas e avenidas, entre as quais a Via Nathan e a Avenida Kadoory. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Gueto de Hongkew tornou-se o lar de aproximadamente 20 mil refugiados da Europa Central.
Segundo estimativas, há cerca de vinte mil judeus vivendo atualmente em Hong Kong, vindos principalmente dos Estados Unidos, Inglaterra, França, África do Sul e Israel. Mais de 30 mil visitantes judeus passam pela região anualmente, levados por negócios ou apenas lazer. Com sinagogas, museus e um Centro Comunitário Judaico, Hong Kong oferece várias opções para quem busca uma vida plena de judaísmo.
Em 1991 foi fundada a Escola Carmel, em Hong Kong, a primeira escola judaica do leste asiático e uma das mais respeitadas instituições internacionais de ensino, com mais de 250 alunos da pré-escola ao ensino médio, oferecendo um currículo secular que segue os moldes das escolas americanas e um programa de estudos judaicos.
Há também uma comunidade judaica em Pequim na qual são realizados serviços religiosos de Shabat, comemoração das Grandes Festas e uma série de outras atividades. A Kehilá de Pequim, como é denominada, faz parte do consórcio judaico da Internet, Shamash. n
Bibliografia:
Return to China, artigo publicado na edição de 22 de junho de 2001 do Jewish Chronicle
Gross, Davic C., The Jewish People’s Almanac
The Jews of China, artigo publicado pelo Dr. Wendy Abraham, do Departamento de Línguas Asiáticas da Universidade de Stanford
Jewish Communities of the World, pelo Dr. Avi Beker, Institute of the World Jewish Congress
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O Ultimo Judeu de Taipé
Shih Hung-Mo acredita ser o último judeu de Taipé.
Com uma aparência oriental, afirma que seus pais e antepassados
viviam abertamente como judeus, mas ele, em função
do contexto do país, prefere não fazer muito alarde
sobre a sua identidade. Hung-Mo fala hebraico e, logo após
a criação do Estado de Israel, escreveu para um rabino
importante pedindo ajuda para chegar ao Estado Judeu, mas não
foi levado a sério. Anos mais tarde, porém, o mesmo rabino decidiu escrever-lhe e pedir desculpas por sua atitude, dizendo que pensara que a carta recebida no passado fosse uma fraude. Hung-Mo, no entanto, não tem a menor dúvida sobre o fato de ser judeu e sempre fala das lembranças de sua infância, quando o pai o levava ao cemitério e lhe mostrava lápides com inscrições em hebraico.
Rumores sobre a existência de um judeu em Taipé despertaram a curiosidade do rabino Marvin Tokayer que, durante suas atividades como líder espiritual em Tóquio, decidiu visitar a ilha para saber se os boatos eram verdadeiros. Ao chegar a Taipé, o religioso encontrou um obstáculo para localizar Hung-Mo – o fato de inúmeras pessoas terem o mesmo nome. Para localizar o indivíduo correto, o rabino Tokayer fez uma pesquisa nos registros demográficos e chegou a Hung-Mo averiguando um item específico – o hebraico, citado como segunda língua.
TESHUVAH DOS JUDEUS MARRANOS DE ORIGEM SEFARADITA –

SEPHER TESHUVAH YEHUDIM – DISCUSSÕES TANAÍTICAS PARA A TESHUVAH DOS JUDEUS MARRANOS DE ORIGEM SEFARADITA – SEDER CHOCHMAH YEHUDIM – TRATADO BERESHIT – SHA'AR 3 – DISCUSSÃO TANAÍTICA 33
De acordo com o que foi discutido até aqui sobre a referência tanaítica SEPHER BERESHIT 1,26-31, porque, então, o ser humano deve estar previamente condenado espiritualmente? Que condenação espiritual é esta? A única condenação imposta ao ser humano é que ele deve morrer fisicamente, mas, entretanto, a sua NEFESH retorna a ADONAI-ELOHIM. Mas, entretanto, foi YESHUA NAZARETH quem impôs a CONDENAÇÃO ESPIRITUAL do ser humano, conforme registrado nas referências evangélicas EVANGELHO DE MARCOS 16,16 e EVANGELHO DE LUCAS 19,27. Mais tarde, através das suas numerosas viagens, PAULLUS TARSOS (3 d.e.c. – 66 d.e.c.), foi o cristão quem mais contribuiu para propagar a enganosa, falsa e ilusória TEOLOGIA DA CONDENAÇÃO ESPIRITUAL do ser humano, o qual, segundo ele, precisa aceitar YESHUA NAZARETH para não ser condenado [18].
De fato, a enganosa, falsa e ilusória TEOLOGIA DA CONDENAÇÃO ESPIRITUAL do ser humano ensina que o ser humano está condenado a morrer espiritualmente caso ele não aceite e nem confesse que YESHUA NAZARETH é o ÚNICO SALVADOR e o ÚNICO SENHOR, e que a sua SALVAÇÃO ESPIRITUAL (o que deve, segundo esta teologia cristã, incluir também a NEFESH do ser humano) foi realizada através do sofrimento e da morte de YESHUA NAZARETH (não profetizados no TANAKH), conforme registrado na referência testamentária EPÍSTOLA DE PAULO AOS ROMANOS 3,21-25 [7].
Na referência testamentária EPÍSTOLA DE PAULO AOS ROMANOS 3,21-25, PAULLUS TARSOS ensina que a JUSTIÇA DIVINA se manifestou sem o concurso da LEI (referindo-se PAULLUS TARSOS a TORAH) devido à redenção realizada através de YESHUA NAZARETH, o qual sofreu, foi crucificado e morto em lugar dos seres humanos, segundo a VONTADE de ADONAI-ELOHIM. Mas, entretanto, este ensinamento cristão é enganoso, falso e ilusório por dois motivos explicados a seguir [18].
Em primeiro lugar, não há nem um único registro de uma referência tanaítica na qual a JUSTIÇA DIVINA permita que um culpado ou um inocente seja condenado à morte física em lugar de outros culpados ou inocentes. Mas, ao contrário deste falso ensinamento, ADONAI-ELOHIM proíbe que membros de famílias sejam condenados à morte física em lugar de outros parentes, segundo está escrito:
Não se fará morrer os pais pelo testemunho dos filhos, nem os filhos pelo testemunho dos pais. Cada homem morrerá pelo seu pecado.
Sepher Devarim 24,16
E a proibição divina de condenar um inocente em lugar do culpado é reforçada, segundo está escrito [18]:
Os que se fiam em sua força e de suas riquezas imensas se vangloriam, nem mesmo a seu irmão podem eles remir, nem ao Eterno oferecer resgate por sua morte, pois tão alto é o preço da vida, que jamais poderá ser alcançado pelo homem, para viver eternamente e não chegar ao sepulcro. Pois se vê que morre o sábio assim como perecem os tolos e insensatos, deixando a outros suas riquezas. Pensavam os ímpios que eternas seriam suas casas, e por gerações sucessivas persistiram suas moradas; até deram seus próprios nomes às suas terras. Porém o homem, com toda sua riqueza, não persiste, pois como qualquer ser vivo, é mortal. Este é o destino – frustrando sua imensa autoconfiança –, vivenciado também por todos que os seguem. Como ovelhas, são tangidos ao sepulcro pela morte, e os justos terão domínio sobre eles; sua beleza e sua força se consumirá e somente a profundeza do Sheól será sua morada. Mas minha alma será redimida do Sheól, pois o Eterno me resgatará.
Sepher Tehilim 49,7-16
A referência tanaítica SEPHER TEHILIM 49,7-16 ensina que mesmo aqueles que possuem riquezas materiais não podem se livrar da morte física porque o preço das suas vidas é muito alto para ser resgatado através de pagamento em dinheiro, sejam estes eruditos, sábios ou tolos. De acordo com isto, a JUSTIÇA DIVINA também proíbe a utilização de dinheiro para condenar inocentes em lugar dos verdadeiros culpados. E, por outro lado, YESHUA NAZARETH não foi condenado à morte física pela VONTADE DIVINA, mas ele foi condenado à morte física pelo fornecimento de uma quantia em dinheiro, conforme registrado nas referências evangélicas EVANGELHO DE MATEUS 26,14-16; EVANGELHO DE MATEUS 27,1-7; EVANGELHO DE MARCOS 14,10-11; e EVANGELHO DE LUCAS 22,1-6 [1,7].
De fato, todos os seres humanos são mortais, mas somente ADONAI-ELOHIM é o ÚNICO a dispor da vida e da morte física dos seres humanos, mas ELE assim o faz sem nenhuma condição ou restrição alguma e muito menos através de acordos financeiros ou políticos. Além do mais, nem mesmo a JUSTIÇA HUMANA permite condenar um ser humano inocente em lugar dos verdadeiros culpados. Por causa disto, no início de qualquer julgamento legal, sempre se cumpre a norma judicial de fornecer todas as informações sobre a identidade do réu aos membros do júri bem como às testemunhas presentes, mencionando principalmente o motivo pelo qual o réu é acusado juridicamente, e não outra pessoa [7,13].
Mas, entretanto, PONTIUS PILATUS (? – 36 d.e.c.), o qual exercia o cargo político de quinto prefeito romano na PROVÍNCIA DE YAHUDAH (PROVÍNCIA DA JUDÉIA), entre os anos de 26 d.e.c. e 36 d.e.c., foi quem, segundo as fontes literárias evangélicas, julgou e condenou à morte a YESHUA NAZARETH, ao cumprir o regulamento jurídico romano de fornecer informações sobre a identidade de YESHUA NAZARETH, como estabelecido, exigido e ordenado pelo DIREITO ROMANO, conforme registrado nas referências evangélicas EVANGELHO DE MATEUS 27,11-26; EVANGELHO DE MARCOS 15,1-15; EVANGELHO DE LUCAS 23,1-25; e EVANGELHO DE JOÃO 18,28-40. E, foi também PONTIUS PILATUS quem ordenou redigir a inscrição INRI em uma tábua de madeira (a qual foi afixada à cruz, e pregada acima da cabeça de YESHUA NAZARETH), informando nela o verdadeiro motivo jurídico da sua crucificação, conforme registrado nas referências evangélicas EVANGELHO DE MATEUS 27,37; EVANGELHO DE MARCOS 15,26; e EVANGELHO DE JOÃO 19,19-20 [10,13].
Porém, somente na referência evangélica EVANGELHO DE JOÃO 19,19-20 está registrado que esta inscrição foi redigida nas línguas grega, latina e hebraica, por ordem de PONTIUS PILATUS. A norma jurídica romana de informar o motivo de uma condenação jurídica ainda é aplicada em tribunais judiciários de vários países do mundo para se evitar que inocentes sejam julgados e condenados em lugar dos verdadeiros culpados. Porém, filósofos e teólogos cristãos querem simplesmente porque querem ensinar que YESHUA NAZARETH foi preso inocentemente, foi julgado e, em seguida, foi condenado à morte física por crucificação em lugar de todos os seres humanos de acordo com a JUSTIÇA DIVINA [10,13].
Em segundo lugar, a TORAH apenas regulamenta que os sacrifícios de animais de gado e de rebanho devem ser realizados no BEIT HAMIKDASH; devem ser oferecidos de acordo com a TORAH; e que estes sacrifícios visam apena a ADORAÇÃO DIVINA realizada pelo ofertante (adorador, o que realiza a oferta), mas não visam a SALVAÇÃO ESPIRITUAL do ofertante porque o ofertante não está de forma alguma sob o domínio da CONDENAÇÃO ESPIRITUAL. Entretanto, a TORAH apenas regulamenta quais as espécies de animais de gado, animais de rebanho e de aves devem ser oferecidos em sacrifício para ADONAI-ELOHIM, conforme registrado na referência tanaítica SEPHER VAYIKRA 1,1-17 [13].
De fato, MIRYAM NAZARETH, a mãe de YESHUA NAZARETH, após sair do estado de impureza NIDDAH (PERÍODO DE TEMPO PARA PURIFICAÇÃO DE UMA MULHER JUDIA), entregou a ZEVACH TODA (OFERTA DE ELEVAÇÃO) a SIMEON, O KOHEN (SACERDOTE), o qual oficiava no BEIT HAMIKDASH, conforme registrado na referência evangélica EVANGELHO DE LUCAS 2,22-39. A oferta ZEVACH TODA entregue por MIRYAM NAZARETH foi um par de rolas e um par de pombinhos, conforme registrado na referência evangélica EVANGELHO DE LUCAS 2,22-24.
Porém, cabe ao ofertante o direito de escolher ofertar (para realizar os sacrifícios prescritos na TORAH) animais de gado, animais de rebanho ou aves (rolas ou filhotes de pombos), e não somente um par de rolas ou dois pombinhos, conforme registrado na referência evangélica EVANGELHO DE LUCAS 2,24. Além disto, a TORAH não registra que o ofertante deve apenas ofertar rolas ou pombinhos. Assim, não sendo os sacrifícios de animais destinados à SALVAÇÃO FÍSICA, à SALVAÇÃO ESPIRITUAL e nem destinados à remissão dos pecados dos ofertantes, então quais os motivos da TORAH registrar as normas para a realização da OLA (SACRIFÍCIOS DE ELEVAÇÃO); as normas para a realização da SHELAMIN (SACRIFÍCIOS DE PAZES); as normas para a realização do CHATAT (SACRIFÍCIOS DE PECADO); e as normas para a realização das MINCHOT (OBLAÇÕES)? Quais os motivos, então?
Na realidade, ADONAI-ELOHIM nunca exigiu, nunca obrigou e nunca ordenou que os FILHOS DE YISRAEL oferecessem sacrifícios de quaisquer animais, mas os filósofos e os teólogos cristãos é que ensinam isto baseado em referências tanaíticas interpretadas de acordo com os seus interesses. Mas, a TORAH registra apenas, exclusivamente, somente e unicamente as regulamentações para atender ao desejo humano de adorar a ADONAI-ELOHIM através de sacrifícios de animais, segundo está escrito:
E Deus disse: “Façamos homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança, e que domine sobre o peixe do mar, sobre a ave dos céus, sobre o animal e em toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta na terra!” E Deus criou o homem à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea criou-os. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: “Frutificai, multiplicai, enchei a terra e subjulgai-a, e dominai sobre o peixe do mar, sobre a ave dos céus e sobre todo o animal que se arrasta na terra!” E Deus disse: “Eis que vos tenho dado toda erva que dá semente que está sobre a face de toda a terra, e toda árvore em que há fruto de árvore que dê semente; a vós será para comer. E para todo animal da terra, para toda ave dos céus e para tudo que se arrasta sobre a terra – em que haja alma viva – , toda verdura de erva será para comer!”, e assim foi. E Deus viu tudo o que fez e eis que era muito bom. E foi tarde e foi manhã, o 6o dia.
Sepher Bereshit 1,26-31
As referências tanaíticas que registram as regulamentações dos sacrifícios da OLA, SHELAMIN, CHATAT e MINCHOT não incluem animais rastejantes e nem tão pouco de seres humanos são: SEPHER VAYIKRA 1,1-17; SEPHER VAYIKRA 2,1-16; SEPHER VAYIKRA 3,1-17; SEPHER VAYIKRA 4,1-35; SEPHER VAYIKRA 5,1-26; SEPHER VAYIKRA 6,1-23; SEPHER VAYIKRA 7,1-38; SEPHER VAYIKRA 16,1-34; SEPHER VAYIKRA 17,1-16; SEPHER VAYIKRA 19,5-8; SEPHER VAYIKRA 22,17-33; e SEPHER DEVARIM 17,1. E, de fato, ADONAI-ELOHIM não exigiu, não obrigou e nem tão pouco ordenou o oferecimento de sacrifícios de animais, e nem de seres humanos. E a prova disto é a palavra do NAVI YIRMIYAHU BEN HIZKIYAHU, segundo está escrito:
Assim disse o Eterno dos Exércitos, o Deus de Israel: Juntai vossas ofertas de elevação às vossas ofertas de paz e comei sua carne. Pois nada falei nem ordenei a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do Egito, em relação às oferendas de elevação ou às ofertas de paz. Somente isto lhes ordenei: Escutai Minha voz e serei vosso Deus e vós sereis Meu povo, e trilhai o caminho que Eu vos ordeno para que tudo vos corra bem.
Sepher Navi Yirmiyahu 7,21-23
A experiência pela qual passou AVRAHAM BEN TERAH (na qual foi impedido por ADONAI-ELOHIM de sacrificar o seu único filho, YITSHAK BEN AVRAHAM) é o melhor exemplo de que ADONAI-ELOHIM despreza, rejeita e repudia sacrifícios humanos, conforme registrado na referência tanaítica SEPHER BERESHIT 22,1-19. No entanto, filósofos e teólogos cristãos continuam insistindo em ensinar que a morte física de YESHUA NAZARETH foi uma oferenda sacrificial de CHATAT [13].
terça-feira, 25 de junho de 2013
O Fator Adão.

O Fator Adão
Por Tzvi Freeman
E todo objeto saberá que Tu o fizeste; e toda criatura entenderá que Tu a criaste; e cada coisa que tenha o sopro da vida em suas narinas proclamará: D'us, o D'us de Israel, é Rei. e Sua soberania reina sobre tudo…
- Preces de Rosh Hashaná
O idioma hebraico não tem palavra para "coisas", "objetos" ou "troços". Até as palavras "físico" e "matéria" são termos emprestados. Em hebraico, todas as coisas são dvarim – "palavras". Palavras: articulações da alma, pensamentos cristalizados. E desde então, tudo que existe é D'us e Suas palavras.
Afinal, D'us falou e o mundo veio a existir. A magia disso é que estas palavras estão tão fortemente concentradas, que não percebemos que são palavras – nós as percebemos como coisas; independentes, autônomas, que só estão aqui porque estão aqui, como se não tivessem qualquer fonte.
Esta é a missão que viemos ao mundo para cumprir: que não somente nós, não somente a humanidade, mas todo efeito deveria saber sua causa, toda forma deveria entender o que a formou – o mundo inteiro deveria se tornar uma luva transparente para a Divindade que contém. Mesmo este senso de "aqui estou eu, porque eu sou" seria visto como nada mais que um reflexo distorcido da verdadeira essência de todas as coisas – o único que está "ali porque Ele está ali."
De fato, isso é o que Adam conseguiu no seu primeiro dia:
Um antigo Midrash nos relata que quando Adam acordou para a vida, encontrou todas as outras criaturas de pé acima dele, adorando-o. Sendo as primeiras das criaturas, elas perceberam que algo as deveria ter formado – e Adam parecia o candidato óbvio.
Adam entendeu de modo diferente, portanto ele se comunicou com elas e levou toda a criação a se conscientizar que deve haver um Ser Superior, não apenas outra criatura, mas um Criador Ilimitado, que fez todas as criaturas existirem e continua a sustê-las, dando vida a cada uma delas – Ele Próprio incluído.
Desde então, esta tem sido a missão de cada descendente de Adam: levar toda a Criação a um estado de percepção mais elevado.
POR TZVI FREEMAN

Rabino Tzvi Freeman, editor sênior de Chabad.org, também lidera nossa equipe Pergunte ao Rabino. É autor de Trazendo o Céu para a Terra. Para inscrever-se e receber atualizações regulares sobre os artigos de Rabino Freeman, visite os Freeman Files.
Porque acender uma vela por um ente querido falecido? Por Rabino Shamai Ende - Em BC News nº 2
Pergunta:
Por que no judaísmo costuma-se acender uma vela por um ente querido falecido? Isto é relevante para a alma, ou é somente um ato simbólico?
Resposta:
O rei Salomão comparou a alma do homem a uma vela, como consta em seu livro (Provérbios cap. 20): “a vela de D’us é a alma do homem”. O motivo para isto é explicado nos livros chassídicos, pois da mesma forma que a chama de uma vela está sempre subindo, e querendo se elevar, voltar a sua origem e desprender-se do pavio que a mantém acesa, a alma judaica, que é uma partícula Divina (vide Tanya cap. 2), deseja constantemente voltar a seu Criador, e se desvincular de seu corpo que a segura neste mundo inferior. Este também é o motivo do costume judaico de se balançar nas orações para despertar a intenção, pois imitamos involuntariamente a chama da vela nesta sua ascensão.
Um dos objetos importantes que havia no Santuário do deserto e, posteriormente, no Templo Sagrado de Jerusalém, era a Menorá. Esta consistia em um candelabro de sete braços que deveria ser acesa diariamente antes do pôr-do-sol. Durante a noite brilhavam todas as sete velas. Estas apagavam-se ao amanhecer, e apenas uma vela permanecia acesa, que milagrosamente ardia o dia todo.
Rabenu Bachyê, (1263-1340), um grande e famoso comentarista da Torá, explica o motivo desta Mitsvá: “É conhecido que a alma tem proveito do acendimento das velas. Por isso, ela navega nos espectros do brilho e da alegria, e se expande e se alarga pelo prazer da luz, já que a alma é uma partícula luminosa extraída da luz intelectual. Ela é atraída pela luz da vela, já que são da mesma espécie, apesar de que nossa luz é física, e a luz da alma é uma luz espiritual pura e simples, [mas ambas são chamadas de luz]. Por isso o Rei Salomão, de bendita memória, comparou a alma à luz da vela, dizendo: ‘a vela de D’us é a alma do homem’.
“Por isto na hora que a pessoa se encontra num estado terminal, deve-se acender uma vela para acompanhar a saída da alma. Durante os sete dias de luto, deverá brilhar uma vela na casa em que faleceu, já que durante estes sete dias a alma visita a casa de onde ela despediu-se deste mundo. Como também, anualmente no dia do Yahrzeit (data do falecimento), deve se acender uma vela em casa ou na sinagoga, já que nesta data a alma tem permissão de voltar a este mundo e visitar a sua casa (se não encontra lá uma vela acesa, ela vai à sinagoga), e ao ver uma vela acesa em sua homenagem, isto lhe causa uma enorme satisfação.
“Por este motivo a Menorá era acesa no Templo Sagrado, pelas almas do povo judeu que faleceram. De noite, quando o julgamento da alma é mais rigoroso, eram necessárias então sete velas, porém durante o dia, quando o julgamento é mais ameno, bastava apenas uma vela.”
Entendemos desta explanação que acender uma vela pelo falecido nos dias citados, além de causar um grande prazer para a alma, ajuda em seu julgamento e ascensão espiritual. Por este motivo também, além dos 7 dias de Shivá, costuma-se manter uma vela acesa na casa do falecido, ou na sinagoga, durante os 11 meses da recitação do Kadish, ou até o primeiro Yahrzeit, acompanhando a elevação da alma deste período.
Acendemos também uma vela de 24 horas na véspera de Yom Kipur pelo falecido, para auxiliar em seu julgamento, já que também as almas são julgadas neste dia sagrado.
Também é um costume acender uma vela numa visita ao cemitério. Nossos sábios explicam, que a alma nem sempre encontra-se ao lado de seu túmulo, podendo ir e vir conforme sua vontade. Sendo assim, pode ser que no momento da visita ela não se encontra lá. Porém, ao deixar lá uma vela acesa, a alma ao voltar ao túmulo fica sabendo quem esteve lá, e pelo prazer de ser lembrada, ela volta ao Trono Celestial e desperta a Misericórdia Divina pela pessoa que a visitou.
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